quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A OUTRA PARA SEMPRE

A outra para sempre

Amanhecia timidamente na Vila de Campos. O sol dava seus primeiros sorrisos por cima da Serra do Cavalo. O povo simples do sertão caminhava feito um gigantesco formigueiro rumo à feira. Era segunda feira, um dia de sol, suor e muita conversa nas esquinas, nas calçadas, bares e botecos espalhados por toda a área urbana da capital do bordado. Tobias Barreto sob a gerência do finado Luís Alves, o Luisinho, um homem querido por todos, deu um salto para o futuro. Ruas foram abertas, outras calçadas, e conjuntos habitacionais foram construídos nas áreas periféricas do município. A cidade cresceu e o crescimento, como em todo lugar, trouxe suas mazelas.
O povo do povoado Ilha, bem cedo, estava com suas barracas vendendo requeijão. Esta é uma herança holandesa. Nunca comi requeijão tão gostoso como o de Sergipe Del Rei. Os filhos de Itabaiana vendiam de ferragens a calçados, em barracas, ou em lonas estendidas no chão. O Mercado da Farinha com uma penumbra interna devida a fraca iluminação cheirava a farinha cosida no ponto, tinha de todo tipo, de caroço grosso, ou da fina. E pelas ruas estreitas e becos escuros moças e rapazes faziam o ritual de acasalamento, o jogo da conquista e da sedução. A vida continuava viva nas feiras de Tobias Barreto.
Lindalva havia se casado com um jovem muito trabalhador. Ela dava aulas no Grupo Escolar e Rosano, seu marido, vendia remédios para pulga, carrapatos e outros males que afetavam a criação de bicho. “Um entendido em bicho por aqui é coisa muito rara e cara, sou mais Rosano”. Diziam os criadores. De fato, o rapaz se dedicou, e com isso foi fazendo a vida e ganhando dinheiro. Colocou seu próprio negócio na maior avenida da cidade, e depois foi investindo o lucro em terras e imóveis. Em dez anos Rosano freqüentava a sociedade local e era muito respeitado. Lindalva era uma professora humana, amiga de todos. Mulher dedicada aos filhos. Seus alunos a adoravam. Todos os anos na páscoa ela comprava presentes para eles, e isso era um motivo de muita alegria. Desta forma a moça conquistou o afeto de alunos e pais ao longo de mais de vinte anos.
Rosano gostava de tomar cerveja nos finais de semana em um barzinho na Avenida Sete de Junho. O bar ficava ao lado de uma pequena Igreja Protestante – “O Reino está Vindo”. Nesta casa de oração havia uma jovem muito bonita. Seus cabelos eram de sereia apaixonada. E seu corpo um violino de 1,72m. A moça cheirava a leite de cabra saída naquele instante do peito da mãe. Rosano via quando a moça passava na calçada do bar. Ele se lembrava de seus dias no povoado Jabeberí, de Lúcia e de seu primeiro grande amor. Seu casamento agora estava estável, contudo, Rosano e Lindalva passavam por crises alternadas todos os anos. Dizem as amigas da moça que foi com macumba que Lindalva laçou o seu touro.
-Lindalva mulher, fala a verdade! Você foi à casa de Romildo, o macumbeiro, num foi?
-Deixem de envenenar minha vida suas peruas, vá de reto Satanás.

Era meio dia quando Clarice se despede dos irmãos de fé e segue em direção ao conjunto Raimundo Geraldo. Ela passou defronte ao bar onde estava Rosano. Aquela foi a primeira vez que os dois se olharam nos olhos. Tanto a moça como o rapaz foram flechados pelo cúpido da paixão. Entretanto, o bom senso de Rosano dizia-lhe que aquele seria apenas mais um casinho. Para Clarice, era Satanás tentando-lhe a fé, pois ela pretendia ganhar o mundo em breve falando do amor de Deus.
-Clarice!
-Sim, pastor.
-Não deixe o diabo te roubar a benção!
-Não pastor eu vou dar lugar ao Espírito Santo na minha vida.
-Que bom minha filha. Concluiu o jovem pastor Fredsmundo em pé à porta de sua pequena paróquia.

Ela saiu da igreja pensando nas palavras do pastor. Envolvida em suas reflexões nem percebeu que Rosano estava na primeira mesa próximo a calçada. Os dois se olharam e suas almas foram feridas mortalmente por um sentimento além das forças, mesmo da fé. Ela virou o rosto para não dar ocasião a nada e segue seu destino a pé. Rosano pede a conta e sai de carro em marcha lenta tentando encontrar seu anjo caído. Com certa dificuldade ele a encontra no antigo depósito de cerveja já próximo do conjunto residencial Raimundo Geraldo. Para o carro, baixa o vidro e diz:
-Está indo para casa? Deseja uma carona?
-Não, obrigada seu Rosano, já está perto. Obrigada.
-Vamos, não custa nada. Insistiu o moço.
-Não, deixa para outra vez. Cortou a moça cheia de desejo de dar uma volta naquele carrão. Dizem que as mulheres adoram homens de carro. Não sei se é verdade, mas, as mais bonitas estão sempre perto de alguém de posse. Será isso uma regra geral? Acho que não. Mas deixa pra lá!

Naquela tarde a moça não descansou. Entrou em seu quarto e ficou ouvindo músicas cristãs e chorando. Sua mãe ficou muito preocupada e bateu na porta:
-Clarice! Abra a porta minha filha!
A moça abriu a porta do quarto, sua mãe entrou, e sentou-se em sua cama.
-O que há contigo minha filha?
-Não sei mãe. Sinto um aperto na alma.
-Já disse ao pastor que não temos dinheiro para viajem?
-Não.
-Clarice, você garante que vai se segurar esse tempo todo sem casar. São anos de estudo.
-Eu sei mãe, mas acho que Deus pode tudo.
-Então, minha filha, tem tanta moça na igreja e elas se casam, e fazem família.
-Mas comigo mãe, Deus tem algo especial.
-Bem, tudo bem. Você pensa assim. Deus te abençoe. Concluiu sua mãe.
Sua mãe, dona Maria, nem sonhava que a razão do choro de Clarice era outra. Ela estava em um carro cinza prata, um opala de luxo especial.

Agora Rosano sabia que Clarice cederia as suas investidas. O rapaz sabia onde a moça morava e qual era seu itinerário até a Igreja do Reino. Rosano passava por ela duas vezes por semana e sempre a convidava para conversar. Clarice não cedia, mas, em casa chorava angustiada como que se algo dentro dela dissesse sim a tudo que ela não queria, mas, que ganhava força dentro dela.

A cidade estava em festa, o mês de agosto havia chegado. A paróquia católica estava anunciando em carro de som que a festa da padroeira, Nossa Senhora Imperatriz dos Campos, seria na semana seguinte. Pessoas de todos os cantos do município que tinham parentes na sede transitavam pela cidade e faziam suas obrigações religiosas.

-Ontem eu me confessei. Mulher! Eu sei que não devia dizer, mas, você viu que padre bonito? Disse dona Estelita, uma camponesa.
-Mulher, num é. Já viu que coisa linda! Nossa senhora que me perdoe, mas esse padre novo é um gato? Concluiu dona Diva, a mulher do eletricista Vasconcelos, amigo de Tadeu.

As pessoas em Tobias gostam de ter certezas das coisas antes de tomarem como verdade. Bem, dizia dona Tereza. Esta mulher morreu dizendo que o finado havia pulado a cerca, mas, o velho era impotente. O coitado perdeu a força depois que levou um coice de uma mula. São coisas da vida. No entanto o que comentavam de Rosano e Clarice fazia muito sentido. Todo domingo após o culto diurno Rosano seguia a moça. E isso estava dando comentários.
- Clarice minha filha, Deus tem uma grande obra em sua vida. Mas devemos nos afastar da aparência do mal. Peça esse homem para parar de seguir você.
- Ele não me deixa quieta. É praticamente todo dia no meu pé. O sangue de Jesus tem poder! Concluiu a jovem crente Clarice.

As pessoas não podem apostar todas as cartas do jogo em si. Nem temos certezas que viveremos alguns minutos depois a nossa pergunta. Às vezes tudo é uma questão te oportunidade. Quando as forças da natureza conspiram, percebemos que somos apenas uma pequena parte da mesma. Naquela noite de domingo a vida de Clarice sofreria pela força de seu desejo. Após o culto, por volta das nove e trinta, Clarice sai da Igreja apressada, sua mãe havia pegado um resfriado e estava com febre. A moça toma o mesmo caminho de sempre. Andava de cabeça baixa pensando em sua vida e em como fugir de toda tentação. Repentinamente, a menina Clarice levanta a cabeça e vê dois faróis em luz baixa que vinha lentamente em sua direção. “Vai me atropelar?” pensou ela. Seu coração já sabia quem estava conduzindo o carro. Seu coração pulou em seu peito. A moça nem sentiu os pingos de água que caiam do céu. O carro para, e uma voz diz ao abrir a porta: “Entre!” Clarice entrou e o carro desapareceu rapidamente na chuva que caía numa rua mal iluminada. Sentada ao lado do motorista, a jovem Clarice vê sua vida nas mãos daquele condutor. O silêncio foi quebrado pela voz de Rosano:
- Você quer beber uma cerveja? Ah, desculpe, você é crente.
- Tudo bem, vamos a algum lugar! Disse a menina.

Os dois em silêncio viam o carro tomar a direção de um bar no Conjunto Irmã Dulce. Desceram do carro. Rosano pediu uma cerveja e um prato de tira gosto. Clarice o acompanhou em tudo, embora sem o hábito de beber, a menina ficou apenas um pouco animada. Rosano pediu a conta e os dois estavam novamente na estrada. A chuva deu uma trégua, a lua alta no céu iluminava o pasto ao lado da rodagem. Rosano viu uma entrada de barro e para lá levou o carro. O carro parou, o silêncio era quebrado somente quando o quero-quero rasca o céu com seu grito. O rapaz olha a menina. Os dois olhares se encontram na penumbra daquela noite. Clarice se torna amante de Rosano.

- Desde a primeira vez que te vi, senti que você seria minha.
- Como você tinha essa certeza? O que aconteceu hoje não vai mais acontecer. Foi só uma tentação. Disse Clarice.
- Será Clarice, acho que você gostou. Não deu para esconder a alegria e o prazer.
- Não seja assim. Eu fui tentada por você, só isso. Me leve para casa.
- Em dez minutos Clarice estava defronte sua casa. Abriu a porta dizendo dentro de si: “Em nome de Jesus, nunca mais vou fazer isso”. A semana passou rápido. O sábado levou Clarice a Igreja. A juventude havia se reunido para ensaiar um jogral para o dia das mães. Clarice fazia o papel de uma moça drogada que encontra Cristo. Ela fazia esse papel muito bem. Mas apesar de buscar tanta ajuda divina a natureza foi mais forte. Agora, aos sábados e domingos Clarice e Rosano se encontram e descobrem algo novo todas as vezes que se vêem. Não demorou muito para que a data da viajem de Clarice ao seminário para estudar teologia chegasse. O pastor levou a igreja a orar e ajudar a jovem missionária. Clarice, com muita dificuldade, deixa Tobias seguindo o destino de sua fé. A estória parecia encerrada.

Dois meses passaram rápido. O correio traz do Rio de Janeiro uma notícia surpresa para a paróquia inteira. A seminarista estava de volta.

- Pastor eu tentei de tudo. Fiz jejum, orei, pedi ajuda as pessoas e nada. Uma moça chamada Esperança, me orientou dizendo que se eu não suportava a vida em clausura ou quase clausura, era porque meu chamado ainda não havia amadurecido, seria melhor voltar.
- Mas, minha filha, todo muito ajudou, pensava que você estava muito bem.
O retorno de Clarice levantou suspeitas sobre o homem do opala. A cidade abraçara a idéia que a moça voltou por causa de Rosano. Em cada beco, ou rua, sempre havia alguém atento aos passos dos dois. A cidade inteira comentava o caso. A mulher de Rosano soube de tudo.
- Rosano, eu não esperava isso de você. Você está de caso com uma moça crente! Você é um safado!
- Mulher, o povo fala demais. Foi só um namorico. As pessoas estão aumentando a coisa. E eu dispensei a menina. Na verdade Rosano só queria brincar com Clarice. A moça não o tirava da cabeça. Rosano era para ela o razão de sua vida, seu primeiro amor, seu primeiro homem, aquele que lhe fez mulher. “Ele anda frio”. Pensou a jovem Clarice retornando do mercadinho. “Vou ficar um pouco mais pela rua para ver se o vejo”. De fato ela tinha certeza que ele passaria ali. Não era intuição, era conhecimento de causa. Ela só não imaginava que ele passaria ao lado de sua esposa. A visão de Rosano ao lado de sua mulher foi um soco no rosto da menina. Aquela noite ela permaneceu em casa chorando pelos cantos.
- Menina, o que tens? Perguntou sua genitora.
- Nada mãe, foi um cisco que caiu no meu olho.
- Não, não é isso não. Você tem chegado tarde. Você está de chamego com alguém, vamos logo, desembucha!
- Desembuchar o que, mãe?
- Desse tal homem que você sai todo sábado e domingo. Ele é casado?

Quando a menina ouviu o nome casado começou a chorar. Sua mãe entendera, e esperou outro momento para conversar com sua filha. A igreja ficou sabendo que a mulher de Rosano falava mal de uma crente. Não demorou muito para juntarem as coisas.

- Clarice, haverá uma reunião de membro para ver seu caso.
- Tá certo pastor.

Na semana seguinte, quinze dias sem ver seu amor. Clarice enfrenta o clero.

- Estamos sabendo com provas muitas que sua pessoa anda de caso com homem casado.
- Não é bem assim, mas...
- Não tem mas, mas! Uma senhora de meia idade separada do marido há anos pede a palavra e diz.
- Essa cidade está entregue a Satanás. As meninas evangélicas ou não, gostam de sair com homens casados. Nós como igreja precisamos dar o exemplo.
- Muito bem dona Margarida. Disse José Plínio, o tocador de órgão.

Com poucas explicações, sem muitas chances. A pequena Clarice foi expulsa do rol de membros da igreja podendo freqüentá-la como visitante. O problema estava resolvido do lado de Deus. Contudo, o coração da moça estava despedaçado. O amor que sentia punha sua fé em conflito.

Rosano e Clarice voltaram a se encontrar regularmente. Não temiam a opinião do povo. O amor os cegara de toda razão. Dona Lindalva se armou com um revolver 38 e foi ao encontro da Jovem amante de seu marido. Clarice passava todas as tardes pela Praça do Cruzeiro, Lindalva tinha essa informação e a esperou ali.

- Pare moça! Quero falar com você!
- Diga senhora.
- Não me chame assim. Você não me respeita. Está de caso com meu marido há meses.
- Não posso negar. Sinto muito. Mas, eu amo Rosano.
- Que direito você tem de destruir minha família?
- Não tenho esse direito e nem quero isso, mas, o que sinto é mais forte.

Lindalva não suportou as palavras da menina e meteu a mão na bolsa e puxou o revolver. “Vou te matar agora sua vagabunda!” “Vou te mandar para o inferno!” A cena de terror estava montada, no entanto, do outro lado da Praça do Cruzeiro, um carro atropela uma moto e chama a atenção de todos. O rapaz precisou ser levado para Aracaju passando mal. Lindalva põe a arma na bolsa e corre para a sua casa. Clarice entende aquilo como uma intervenção de Deus, e o agradece pelo livramento. Daquele dia em diante, a menina pôs na cabeça que Deus havia unido aquele homem casado a ela. Todas as igrejas da cidade condenaram o caso. Até o Padre deu seu parecer: “Isso é adultério!”

- Rosano, você precisa tomar uma decisão. Se você me ama, deve se casar comigo.
- Mas, Clarice eu não pretendia isso!
- Quer dizer que eu seria apenas sua outra?
- Mas agora é diferente!
- Você gosta de mim?
- Sei lá!

Rosano deixou a loja sob os cuidados de seu melhor amigo, Anselmo Duarte, e foi morar na Bahia, perto do Catú. Clarice foi com ele. Se não fosse a depressão aqueles teriam sidos os dias mais felizes de sua vida. Rosano trabalhava para os fazendeiros e fazia mais dinheiro, e a loja em Tobias estava “de vento em popa”. Porém, em casa, Clarice padecia de profunda culpa e depressão, mesmo cercada de amigos por todos os lados.

- Deus, me mostra tua vontade! Dizia Clarice todos os dias quando acordava. A moça orava todas as manhãs. Seu coração voltou-se para Deus. Rosano em sua vida era um pecado necessário.

“Deus me disse que o salvaria. Ele me pôs com ele para salvá-lo”.

Alguns irmãos, ex-membros de sua igreja creram na idéia. Eles passaram a achar que aquele amor, embora ilícito, era a loucura de Deus para salvar um pecador. Clarice se correspondia com os irmãos regularmente e contava de seu estado. Os crentes em Tobias oravam pela moça que era a outra. Mas, mesmo, abraçada pela igreja novamente, Clarice não vence a depressão. Tinha crises diárias de histeria. Rosano não sabia o que fazer. Uma amiga de Rosano diz para ele que o caso de Clarice era coisa de macumba. “Quem sabe Lindalva não tenha feito um feitiço?” A mulher levou a menina crente para uma gira de Exu. Clarice não sabia de que se tratava. Levaram-na como se fosse para uma festa na casa de amigos. Rosano foi com ela. A casa era luxuosa. A pintura da frente era verde bem claro. As paredes internas tinham uma mistura de tintas claras e escuras. Clarice foi atendida na sala de consultas. Um quarto reservado para consultas de esquerda. Dentro havia imagens e ferros em caqueiros. Pequenas estátuas de mulheres vestidas com roupas pretas e vermelhas. Muita bebida e cheiro de cigarros, cigarrilhas e champanhe.

- Clarice entre aqui para a gente falar com dona Maria!
- Quem é dona Maria?
- Você vai ver.
- Não estou gostando de nada. Que lugar esquisito!
- Não tenha medo! As duas entraram no quarto e lá dentro estava Maria Padilha vestida a rigor.

- Há, há, há! Então essa é a salvadora! Iá, iá, iá...
-Diga: Salve dona Maria! Mandou a mulher que a acompanhava. Clarice sem entender disse: “Salve dona Maria!”

- Você sabe onde você está?
- Não!
- No inferno sua tola! Iá, iá, ia!
- Como assim?
- Você sabia que você é das nossas?
- A verdade parece dura. É um inferno enxergar as coisas, não?
- Ainda não entendi.
- Então, entenda! O que você sente nada tem haver com nada. Apenas você desejou o homem da outra. Assuma a bronca! A natureza humana é assim. Afinal, o que é você? Não é humana, não sangra? O desejo da mulher ou do homem, quem pode controlar? A paixão é chama e quando queima, queima até a alma. Tua depressão passará quando você entender que errou e se lembrar que foi apenas humana. Iá, iá, iá... Agora, o grande não tem nada a ver com isso. Mas tem muito a ver com o que você dirá para as pessoas...

Clarice retornou para sua casa dizendo que Rosano a levou para falar com o diabo. Ela passou um bom tempo para perdoar seu amor. Rosano viu que a moça distante da família estava piorando. Resolveu voltar para sua terra. Compraram uma casa em Tobias e viveram suas vidas. Clarice formou um grupo de oração em sua nova residência, com o tempo, mais irmãos foram orar com ela. Logo, o povo mudou de opinião. Agora para a sociedade local, Clarice e Rosano eram marido e mulher. Clarice se tornou em um pilar de oração para muitas mulheres da sociedade. E em algumas ocasiões ela sentia que era usada para dar oráculos para as pessoas. “Deus tem me usado muito, louvado seja seu nome!”

O grupo de Clarice se tornou uma Igreja Evangélica. Rosano, um ano depois, se casou com ela. “Agora Deus me visitara de vez”. Pensou a moça.

Os anos se passaram. Nunca mais ouvi falar de Lindalva. Dizem que ela se aposentou e que todas as tarde fazia exercícios para emagrecer. Rosano pôs outra loja e ficou mais rico. Clarice disse que Jesus estava muito perto de voltar.

- Rosano, meu amor me faça um favor!
- Sim, Clarice, diga!
- Traga-me o remédio que deixei no armário!
- Qual?
- Aquele, rapaz, que é para dormir. Apagaram a luz e pegaram no sono até o outro dia.

- Num é Calunga? Só Deus conhece as pessoas!
- É, dona Maria, só o grande sabe...


Por Roosevelt Vieira Leite






quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Identificação Velada

Caríssimos,

Antes de tudo, aviso que não quero entrar em discussões que abarquem o relativismo cultural e/ou moral.
Tratarei aqui, apenas, de fazer um alerta a alguns indivíduos, conhecidos meus, que certamente compartilham de um posicionamento com um número significativo de adeptos.

Refiro-me aos indivíduos que se mostraram aterrorizados com a morte de várias pessoas na Noruega, por obra de um nativo desse país, Anders Breivik. Mostrar-se aterrorizado é algo moralmente nobre etc. e tal. O problema é que muitas destas pessoas, em contrapartida, compram bandeiras como a da homofobia, do elitismo econômico e, de forma mais sutil, do racismo.

E onde entra o paradoxo?

O problema é que já há um consenso entre os próprios cientistas políticos de que a atitude do norueguês não é mais que porta-voz de toda uma bandeira de partidos de extrema-direita ao redor da Europa e dos Estados Unidos. No caso desta tragédia, em específico, vimos um caso emblemático de aonde pode chegar a "islamofobia". Esta bandeira é levantada por partidos como a Liga Norte, da Itália, bem como a Frente Nacional, na França, para citar alguns exemplos. Aliás, não à toa, integrantes destes partidos mostraram discreto apoio ao terrorista.

Adivinhemos qual a bandeira levantada descaradamente por uma facção política estadounidense (Tea Party) que compactua destes mesmos valores? A homofobia, o racismo, a xenofobia etc.

Portanto, faz-se interessante alguma cautela na hora de se aderir, com argumentos baseados em raciocínios nada verossimilhantes ou sistemáticos, a certas bandeiras que são levantadas categoricamente por grupos que deram e dão sustentação ideológica a tristes atentados como o que vimos recentemente na Escandinávia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O Torto na UFBA


Apesar das inúmeras críticas que o blog “O Torto” tem recebido, o que não deixa de ser muito importante para o seu crescimento, ele tem transitado para além das fronteiras de Sergipe. Pois bem: acompanhados por Rebeca do Planeta Torto e pelo autor do torto Reuel Astronauta, eu e meu querido torto Roosevelt Vieira Leite arrumamos nossas malas e fomos para Salvador apresentar o artigo “A música brega nas salas de aula” no VII ENECULT realizado entre os dias 03 a 05 de agosto na Universidade Federal da Bahia (UFBA) no campus de Ondina.

Para quem não se lembra, algum tempo atrás eu postei no espaço do blog uma série de ensaios livres intitulados “ A música de vanguarda e a educação”. A partir desse texto, nosso criativo autor Roosevelt, aproveitando que tinha lido, relido e construído criticas e sugestões sobre a minha dissertação “Música Brega: um fantasma visível” defendida na UFBA, além de sua experiência em sala de aula, pensou em analisar a música brega fazendo um contraponto com o elitismo estético encontrado nos ambientes escolares.

A partir desse insight, nosso autor torto começou a postar textos no blog e receber muitos comentários que nos serviram para construirmos nosso artigo. Depois da fase hipotética da pesquisa, eu e Roosevelt tivemos reuniões em Tobias Barreto cidade na qual ele reside. Nessas reuniões fomos juntando textos e conseguindo aos poucos delinear o nosso recorte. O resultado foi o seguinte: seguindo o enfoque do dialogismo proposto pelo Método Paulo Freire, tentamos analisar a importância da utilização da música brega nas aulas de redação no primeiro ano do ensino médio de uma escola da rede estadual localizada no povoado Jenipapo, município de Lagarto.

Obviamente que o estudo por se encontrar em fase embrionária, deixou muitas questões para serem mais bem debatidas como a imposição estética dos docentes nas salas de aula e uma possível metodologia a ser aplicada nas salas de aula a partir do repertório da música brega. Porém, eu e meu querido Roosevelt estamos cientes de que o trabalho científico não corresponde a um resultado final e absoluto, mas sim, a um processo de constante e oscilante construção e delimitação de seu objeto. Estamos certos de que o nosso trabalho ainda precisa resolucionar muitas questões sobre a música brega nas salas de aula.

Portanto, para quem acha que o interesse do blog se limita apenas a provocar verborragias, estamos a partir desse momento, provando que isso não passa de mais outro olhar equivocado acerca do torto. Com esse evento, pudemos sair cientes do nosso papel ao propormos um novo olhar acerca da utilização da música brega nas salas de aula. Só tenho a dizer que o ENECULT foi muito produtivo e prazeroso, pois notamos claramente o interesse das pessoas que estavam assistindo a nossa mesa em acrescentar novos olhares.

E tem mais: se acham que “O Torto” vai parar por aí estão muito enganados. Estamos com projetos de dar prosseguimentos com nossa pesquisa em outros congressos, assim como em publicar um artigo mais amadurecido em revistas científicas. Estamos esperando ainda o resultado do EDUCON que será realizado na UFS, assim como estamos nos inscrevendo no Congresso Nacional de Educação e Diversidade que será realizado no Campus de Itabaiana. Além desse meu projeto com Roosevelt, também já andei conversando com o torto Josué Maia para começarmos a abordar temas acerca do divórcio nos setores médios da sociedade com o intuito de lançarmos mais trabalhos científicos, aproveitando e divulgando também “O Torto” para outros lugares.

Bom, o que eu queria mesmo era dizer o seguinte: o blog “O Torto”, apesar de ter recebido e de receber opiniões reprovativas de que é um movimento efêmero assim como a sociedade de consumo, tem se provado um movimento forte e concreto. Sai autor, entra autor e “O Torto” está aí se mantendo pelo tempo sabendo que por ser feito por humanos, ele se deixa renovar, amadurecer, como também entrar em crise, provocando como consequência, uma constante alteração na forma de olhar o mundo. Como eu e alguns autores já observamos, o blog “O Torto” tem a capacidade inclusive de se criticar e de se destruir a todo instante.

Gostaria de agradecer aos leitores e aos autores que através dos comentários interferem com novas opiniões e informações nos textos publicados no blog “O Torto”. Como podemos perceber, essas opiniões nos são de grande valia.

A morte do pai

Se Deus esta morto,
o Diabo seria a nossa salvacao.

A queda do pai partiu em pedacos
toda a constituicao elementar super egoica.

O nosso eu perdeu a referencia,
os deuses de ontem perderam o trono.

Se Deus esta morto,
pobre sera o diabo que prestar
as contas com a nossa salvacao.

Em nome do pai,
sem filho.

Em nome do filho,
sem espirito.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Macaquismo

Obstaculizando a aplicação do conceito a violência dos dias faz-nos crer que a filosofia, engordurada pela densa massa de hipotéticas e seráficas sugestões, não faz sentido, a não ser para quem extrai dela o pecúlio que lhe quita os gastos mensais, fundamentais à manutenção do bom funcionamento do corpo e da elegante posição de doutor frente ao alunado. Sobre o muro que se impõe aos sentimentos despertados essencialmente pelas proficuidades do espírito pouco falam os sábios filósofos. A substância do amor, por exemplo, é absorvida da contemplação estética, em que os personagens analisados evidentemente não cagam e não são impelidos a agir absurdamente, direcionados por um impulso imediato de cólera. A vida, para eles, transcorre tal qual um drama de Shakespeare, desembrulhando-se em forma de querelas tratadas num vernáculo que obedece a uma ordem polida e racional, não havendo nas pinturas ocres inspiradas pelas carências de suas almas uma espessura ínfima de sujeira, uma reminiscência de verdade que seja dita da mesma maneira quando nos sentimos repletos após ejacularmos, senão os matizes mornos de um literário fim de tarde, no qual um jovem pálido mira para uma moça entornada em vestes brancas e logo então a beija, caindo depois o sol, frente a eles, nas profundezas do mar calmo. Nunca lemos em tratado espiritual que seja como a alma se sente feliz quando uma grossa correnteza de cerveja gelada penetra as entranhas do corpo, fulminando uma célula atrás da outra, fazendo declinar a sanidade dos sentidos. Subverter a razão não é desculpa plausível para demonizarmo-la – a cerveja, como a indiferença para os estóicos, faz desse extravagante erro a que chamamos vida algo mais aturável. Tanto pior os imperativos filosóficos que condenaram um número sem fim de seres à menoridade do ascetismo, subsidiando-lhes de motivos consideráveis para morrerem apartados da sublimação carnal, ignotos, masturbando o cérebro com tomos e mais tomos recheados de idéias dúbias e geralmente desumanas. Os filósofos têm de observar que, embora racionais, ainda somos irmãos próximos dos macacos, fazemos demasiada macaquice e recendemos fortemente o rabujo próprio do animal selvagem.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Descontrole

A desconhecida aurora dos afetos
Ergue um palco de estranhas forças
E um barco que sempre retorna
Vai e vem na mansão do universo
Condenado a buscar sempre o belo
Assim, sem zelo...

E os amores não se sabem tontos
Mas se julgam prontos
Como carros-pipa
Pr’apagar o fogo
Com água finita...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

um, texto. logico

um texto. para ser pensado. precisa de uma boa pontuacao. paragrafos. ponto continuando. introducao, desenvolvimento e conclusao. para que? definir ideias? desenvolver bem uma argumentacao? para ajudar no desencadeamento logico da discussao? talvez.
A pontuacao se faz necessaria para abarcar uma grande quantidade de leitores. Sem uma norma de como se procede um texto, poucos sao eles que conseguirao decodificar um texto. Acredito que as normas podem ser convenientes, assim como os codigos de transitos. Sem eles, as avenidas e rodovias seriam um caos. Toda vez que eu ultrapassasse alguem, que nao me falta vontade para isso, uma garra seria jogada contra o meu para- brisa. Vemos que alguns textos jornalisticos assumem essa postura normativa para que a informacao seja precisa aos leitores refletirem numa direcao unilateral. Mas, ainda bem que essas regras nao se aplicam no geral. Um texto e um texto. E nao precisa de normas restritivas semelhante as regras de transito.
Um vez me indicaram " A viagem do elefante" para ler, tendo uma ressalva: o livro era muito chato por "nao ter pontuacao". Diria que o autor, Jose Saramago, chama atencao nao so para historia, como tambem para as normas de pontuacao que ele estabelece. Acredito que isso seria um modo de repensar sobre a leitura que nos estamos acostumados a fazer. Se a pontuacao nao e definida dentro das normas gramaticais, se faz necessario demandar um bom tempo ou entender sob outra otica o que estar escrito naquelas linhas.
Um texto depende de uma pontuacao para ter um sentido "definido". Ou melhor, uma pontucao dara um tom sobre o texto ou ate definira sobre, mesmo nao tendo pontuacao alguma. Essa tal pontuacao denomina, na maioria das vezes, um significado que difere quando ela e posta de maneira anarquica: os significados sao quebrados e novos sentidos sao abertos, assim como seus significantes. A partir disso, a leitura se faz mais enriquecidas, pois poderemos pensar em diversos, ou melhor, infinitos significados que podem ou nao serem combinados.
Falo de um texto escrito, mas ele pode ser de ordem visual ou ate publicitaria. Os encaixes feito pelas pontuacoes na ordem que estamos acostumados, naturalizamos e dizemos que essa tal ordem e logica. Logica, ao menos, no interesse que o discurso alcancou, tendo como "background", a ideologia em um ordenamento de palavras arbitrarias.
para ser um texto. creio eu, que. nao precisa de um inicio, meio e fim. ele nunca perdera um significado. porque um texto. mesmo feito em um linha. Carrega infinitos sons, significados e indeterminaveis significantes.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Milhões de Outros Mundos

Meu bem, você é muito linda
Se a desejam, e daí?
Se eu sou seu escolhido
E você é linda, meu amor
Que estúpido eu seria
Condenar quem compartilha
Deste meu valor?

Porque são vários olhos
Girando a cada tempo
Em milhões de outros mundos
Porque existem vidas
Querendo desvendar
Seus milhares de sentidos

sexta-feira, 29 de julho de 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

DIALOGISMO: Freire, Vygotsky e Bakhtin

“Escrever e ler como diálogo”

Por Roosevelt Vieira leite


Resumo

A escrita e a fala possuem naturezas diferentes. A primeira é artificial, a segunda ocorre naturalmente. Ensinar a escrita e a leitura deve considerar essa diferença. As teorias de Freire, Vygotsky e Bakhtin nos dão suporte para crermos que o ensino da escrita e da leitura deve ter como base uma teoria Dialogista. Os temas geradores de Paulo Freire dão suporte ao ensino da escrita que trabalha a palavra do povo, ou seja, aquela inserida em um contexto dialógico. Ademias, os conceitos de interação de Vygotsky e de polifonia de Bakhtin nos remetem ao que o teórico brasileiro chama de dialogismo. Escrever e ler para dialogar com as camadas sociais em busca de melhoras concretas e libertadoras como diria Paulo Freire. Essa concepção denuncia o sem-sentido de nossa prática pedagógica no que diz respeito à alfabetização de jovens e de adultos.

Palavras-Chave: Dialogismo, Escrever, Ler, Polifonia.

INTRODUÇÃO

Esse breve artigo pretende mostrar a importância das teorias Dialogistas no ensino da Escrita e da Leitura. O texto apresenta o dialogismo freiriano, vygotskyano e bakhtiano de forma muito sucinta, pois, sua intenção não foi uma análise profunda dessas teorias. O artigo coloca os temas geradores de Paulo Freire como um caminho legítimo e eficaz para a alfabetização e desenvolvimento de uma mente critica capaz de se situar em seu locus e na história. Os autores entendem que por meio da alfabetização dialógica o ser humano pode tornar-se um leitor crítico e um ser escrevente com habilidades para dialogar com o mundo. Ao mesmo tempo, é feita uma pequena crítica ao nosso sistema de ensino que, infelizmente, insiste em impor ao educando o seu discurso. E, inevitavelmente, faz do mesmo um oprimido pela sua alienação. Não temos dúvida que as teorias abaixo comentadas trarão uma centelha de luz para todos que estejam de alguma forma ligados a Educação.

O CAMINHO DO DIÁLOGO

A escrita é um fenômeno humano que depende da aprendizagem. Não é natural. Não existem em nós órgãos criados unicamente para a escrita. Fazemos uso de ferramentas fisiológicas que durante muitos milênios tiveram suas funções naturais exploradas sem a aprendizagem formal. O homem rompeu seu cordão umbilical com a natureza e tornou-se entre outras coisas, um ser escrevente. O ser escrevente é sobre tudo um ser falante. A escrita é a reprodução opaca da fala. Tentar reproduzir o que dizemos de forma escrita não é um algo fácil. Portanto, é necessário o conhecimento de uma boa parte do léxico, um razoável domínio do código e das estruturas morfossintáticas.

A inexistência de um código tornaria a escrita impossível. Assim, os homens de forma escrita não se entenderiam. O mesmo ocorre com a fala. Esta é de forma inconsciente internalizada nos primeiros anos de vida de uma pessoa. O uso da fala é o uso das estruturas lingüísticas interiorizadas num processo dialógico, por isso, sinaliza para a existência de um código. No cotidiano, o falante amplia seu corpus lexical permitindo-lhe um perfeito entrosamento semântico e com ele um imergir no fluído lingüístico social. A língua mãe de uma pessoa é usada pelo falante de forma natural não necessitando da educação formal para isso. Suas estruturas formam a base do pensamento humano e o falante não precisa de aprendizado para dizer o que quer. A Fala culta, a acadêmica, a religiosa, a jurídica, a política, é que precisa de um aprendizado formal. O conhecimento da Fala Culta é, por essa causa, uma necessidade social (VYGOTSKY, 1991).

O conhecimento da escrita, e em particular, a escrita culta é também uma premente necessidade social. O indivíduo que não possui habilidades para tanto, está em tese, à margem das grandes descobertas da humanidade. A escrita nos puxa para outro fenômeno de valor inverso. O termo “valor” serve apenas para mostrar a relação codificação/decodificação. Enquanto aquele que escreve codifica, o que ler decodifica. A codificação é o processo inverso da decodificação e ambos necessitam de uma pré - leitura e uma pós - leitura do mundo. Assim como escrever é uma forma de ler o mundo; ler alguma coisa é uma releitura da mesma. Portanto, ler e escrever são fenômenos de uma mesma categoria (FREITAS, 1994).

Podemos colocar a leitura e a escrita como partes integrantes da dimensão social do homem. Não apenas isso; elas estão postas de forma inseparável. Não se escreve sem ler, não se ler sem se escrever. Isso nos faz questionar os métodos de alfabetização nos países em que as crianças aprendem a ler e a escrever na escola. Mas, esse não é o objeto primaz desse artigo. Seu objeto é apresentar um fragmento do dialogismo como um caminho para uma melhor aquisição dessas competências.

Ler e escrever são formas de organizar as estruturas do pensamento. Ler somente, ou escrever somente, se fosse possível, não nos daria a organização do pensamento que a sociedade culta exige do cidadão. Logo, não alcançar essas competências significa exclusão social. Assim nos deparamos com o conceito marxista de classes sociais e dos conflitos entre elas. O domínio da leitura e da escrita é, então, uma condição para o diálogo com as outras categorias sociais. Sem a leitura e a escrita, o homem não produz discurso político, o que reforçaria sua condição de alienado dos fatos de sua história. A relação entre escrita, leitura, e discurso se materializa no pensamento humano. O pensamento na concepção de Vygotsky (1991) é resultado do discurso. O sujeito pensante Vygotskiano tem uma mente social. Uma mente construída por uma relação dialógica, por isso, uma relação intersubjetiva e interdiscursiva. O aluno e o mestre, o aluno e seu colega mais velho, ou de mesma idade, o aluno e todos os códigos presentes no tecido social. Uma mente que produz discursos oriundos dos discursos sociais. É bom enfatizar que o termo discurso em Vygotsky não se limita apenas ao texto oral ou escrito. A linguagem como um todo, para o pensador russo, constitui-se em múltiplas formas de discursos (VYGOTSKY, 1991).

Desta forma, aprender a ler e a escrever não é objeto apenas de interesse da pedagogia, mas, de outros ramos do conhecimento: Psicologia, lingüística, sociologia, etc. Muito mais do que isso, a maneira como alguém aprende a ler e a escrever determina, a priori, que tipo de homem e cidadão construímos no mundo, sendo assim, vemos plasmado nas pedagogias de escrita e leitura, o discurso político de uma dada sociedade. A última colocação nos remete inevitavelmente a teoria de Paulo Freire que aqui chamaremos de Dialogismo (FREIRE, 1987).

A educação em Freire (1987) entende que o homem é um ser histórico, portanto, um ser que possui uma história coletiva e pessoal. A história das pessoas não está separada de uma totalidade histórica. A totalidade histórica deixa suas impressões na vida cotidiana das pessoas. Assim, as pessoas nem sabem, muitas vezes, o que lhes ocorre e qual a causa disso. A situação natural do homem é de alienação. Para o educador brasileiro a educação deve partir do concreto, da realidade das pessoas; a educação, então, não deve estar separada da história das pessoas. Freire (1987) entende que enquanto ser simbólico, o homem diferentemente dos animais, consegue separar-se da natureza e ter consciência de seu mundo, ter consciência de si; um sujeito no mundo, um eu-tu. O homem, por esta causa, é um ser situacional; ele está no mundo, na história. Ele historicamente está em uma situação. Esta possui ligações com uma situação histórica maior que a sua, e ele, na maioria das vezes, está perdido nos meandros do real.

O homem como ser em situação tem situações limites. São elas que dizem que é o momento de propor mudanças, renovações. A realidade, na visão de Freire (1987), é de conflito. O simples fato de se não ver as nossas situações limites, é prova que essa é uma situação limite. O terceiro mundo pode ser reconhecido por seu grau de apatia a realidade social. As pessoas por essa ou aquela razão não percebem as situações limites presentes em sua realidade. A situação limite uma vez levantada provoca o dialogo.

A “situação-limite” do subdesenvolvimento, ao qual está ligado o problema da dependência, é a fundamental característica do “terceiro mundo”. a tarefa de superar tal situação, que é uma totalidade, por outra, a do desenvolvimento, é, por sua vez, o imperativo básico do Terceiro Mundo. (FREIRE, 1987, p. 54)

As situações limites estão presentes em um mundo histórico cultural, um mundo simbólico por ser o lócus de nossas tematizações, nossos signos, por vezes desconhecidos pela maioria das pessoas. O homem histórico posto por Freire (1987), é um homem capaz de se aperceber dos fatos, de detectar temas que se referem ao seu real, ao seu cotidiano; são temas que falam sobre a sua situação no mundo. Esses temas que estão presentes nas situações limites, são geradores de problematização. As situações limites estão presentes em todas as épocas, em todas as áreas, em todas as camadas sociais, pois somos seres em situação, temos uma situacionalidade. Por esta causa, os temas geradores de problematizações estão aqui e lá. Eles, na visão de Freire, devem provocar o diálogo em sala de aula por que despertam nas pessoas o estranhamento ou a afinidade; eles são o foco de nossa dinâmica como educadores engajados na luta “revolucionária”. Está na discussão sobre o real, o caminho para a libertação na visão de Freire.


Enquanto na prática “bancária” da educação, antialógica por essência, por isto, não comunicativa, o educador deposita no educando o conteúdo programático da educação, que ele mesmo elabora ou elaboram para ele, na prática problematizadora, dialógica por excelência, este conteúdo, que jamais é “depositado”, se organiza e se constitui na visão de mundo dos educandos, em que se encontram seus “temas geradores”. (FREIRE, 1987, p.58)



A investigação dos temas geradores deve partir do contexto existencial do educando. De sua vida em sua sociedade. Em seu lócus histórico-cultural. A investigação busca detectar temas que ligue o educando ao seu real, e partindo daí continuar o processo caracterizado pelo ir e vir da dialética freireana. Do particular para o geral, do geral para o particular. A concepção freireana de educação entende que um determinado tema gerador está ligado a outros temas numa grande malha de temáticas que constituem a existência humana. Os temas se arranjam em círculos concêntricos, os mais próximos do centro são os mais particulares e os mais periféricos se referem ao macro sistema, ao sócio-cultural, às relações sócio-econômicas, à história.

Educação e investigação temática, na concepção problematizadora da educação, se tornam momentos de um mesmo processo. (FREIRE, 1987, p.58)


A investigação perpassa o contato pessoal com as pessoas envolvidas no processo estendendo-se até as famílias e a sociedade em torno da escola. A investigação busca no povo o seu tema significativo ou tema gerador. No processo de investigação o educador não pode sugerir um tema. Isto pode prejudicar todo o processo. O tema surge da visão de mundo das pessoas envolvidas no processo pedagógico. Desta maneira a pedagogia de Freire pode ser chamada de dialógica por excelência.

É muito difícil vermos, mesmo, em uma escola de periferia de uma grande cidade ou em uma escola da zona rural a presença de temas cotidianos como temas geradores de discussão. Essa observação não se limita apenas ao que chamamos de cotidiano, mas, a todas as manifestações populares. O curioso é que isto acontece também nas escolas públicas o que não deveria acontecer, pois, enquanto públicas deveriam estar mais engajadas com a diversidade de nossa terra. Este fato nos mostra a natureza antidialógica de nossa educação, a que Freire (1987) rotula como “Educação bancária”. A educação sem diálogo com as partes envolvidas. Aprender a ler e a escrever fora do contexto do diálogo é atomizar a realidade, ou seja, reduzi-la ao máximo, o que torna a palavra sem sentido, pois, ela só o tem no diálogo. Não é por acaso que produzimos gerações de analfabetos funcionais.

A palavra existe por causa do “tu”. A palavra existe por causa do outro. Ela só funciona no ambiente social. Bakhtin (2006) entende que o outro está aqui e falamos ou nos comunicamos por causa do outro. O outro constrói minha subjetividade. Em um dado momento sou o outro daquele que vejo como outro. E o outro é sujeito no mundo comigo. Estando em constante diálogo com o outro, os homens podem usar o verbo para dominar ou libertar-se da dominação. A palavra ou a fala é ideológica, portanto, nenhuma ação humana está fora de um contexto político, logo, educar em Bakhtin também é uma ação política. Por isso podemos dizer que ensinar a ler e a escrever é um ato político.

Tanto Freire (1987) como Bakhtin (2006) enxergam o educar como um diálogo com os homens. Um diálogo não é somente político, mas um diálogo que perpassa todas as dimensões humanas. Poderia dizer que perpassa toda a fenomenologia do homem. No caso do método de Freire, o diálogo se estende do micro para o macro, por toda a sua realidade. Iniciando a análise de seu lócus histórico, de seus temas peculiares, até uma discussão de mundo. Bakhtin (2006), por sua vez, nos apresenta a realidade polifônica. A multiplicidade de discursos que se misturam e se orquestram harmonicamente sem perder a sua natureza diversa, formando o que consideramos realidade. Educar, e no nosso caso, ensinar a ler e a escrever sem considerar este fato, é apresentar a criança um código lingüístico sem a sua maior e verdadeira função: Dialogar com o mundo. Para ele o mundo está em constante diálogo. Toda leitura e todo texto escrito nos faz dialogar de alguma forma.

A criança precisa ser exposta a todas as formas de discursos para que seu aprendizado da escrita e leitura lhe ofereça uma quantidade maior de possibilidades de entendimento do real. A palavra como unidade ideológica discursiva deve ser apresentada ao aluno no âmbito das interações sociais. Pois, é com o adulto que ele inicia sua caminhada para a construção de uma mente crítica.

Os temas geradores de Freire apresentam palavras de nossa realidade cotidiana, portanto, a soma deles, nos fala de nossa existência, de nosso lócus, e isso faz a criança ver, desde cedo, que representamos o mundo com palavras e elas, ao contrário do postulado sausseriano, não estão no discurso de forma aleatória, pelo contrário, eles existem por alguma razão, e esta é dialógica.

Pensando assim, aprender a ler e a escrever deixará de ser um processo mecânico e alienador. Pois, o educando entende que nas palavras estão os diversos sentidos que formam tanto sua subjetividade como o mundo objetivo das relações sociais. Vendo-se no mundo, surge a necessidade de ampliação do corpus lexical, pois, surge a necessidade de novas palavras. Esse processo cessa apenas na morte. Não podemos falar de leitura ou escrita no singular. Existem leituras e escritas. Estas constituem o âmago da análise lógica e consistente da realidade o que para Freire é a libertação do oprimido, para Vygotsky (1991) a formação da mente social, e para Bakhtin (1991), a percepção do mundo enquanto realidade simbólica e ser capaz de produzir uma contra-fala, ou seja, uma problematização.

É muito comum, em salas de aulas, vermos alunos que após lerem um dado texto dirigido para sua faixa etária, não terem sucesso na interpretação do mesmo. Por quê? A resposta está no que Freire coloca como ensino bancário, termo já citado neste artigo. A criança é submetida a uma didática que visa o aprendizado do discurso dominante e não tem acesso a sua fala. Como conseqüência, mesmo, inconsciente, ele não erotiza o aprender, e este se torna um fardo em sua vida.

CONCLUSÃO

Diante do que foi posto por este breve artigo, urge perguntarmos: Como ensinar a ler e a escrever? Desnaturalizar o que é natural é, pelo menos, uma tolice. A fala deve ter a primazia no ensino da escrita e da leitura. A palavra dessa fala, que para Freire é a fala do povo, que por vezes está hospedada nele como a fala do outro que o domina deve ter a primazia, pois, sem dúvida a fala é natural. Nossa educação prioriza os cânones, prioriza a diretrizes impostas de forma vertical e divide o povo; uma velha estratégia do dominador: Dividir para tornar mais fácil a alienação. O presente artigo não apresenta metodologias de ensino da leitura e escrita; sua intenção foi apenas mostrar o diálogo como um caminho, um novo e maravilhoso caminho que pode fazer do ensino da escrita e da leitura algo saboroso e despertador de curiosidades, o primeiro passo para a mente científica e filosófica.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Bakhtin, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. HUCITEC, 12ª Ed, 2006.

Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 17ª Ed., 1987.

Freitas, Maria Teresa de Assunção. Vygotsky e Bakhtin – Psicologia e educação: Um intertexto. São Paulo: Ática, 1994.

Vygotsky, Lev Semenovitch. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 4ª Ed., 1991.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Percepção e Comportamento Social como Ferramenta

Estive refletindo algo acerca da capacidade de liderança das pessoas, me perguntando o que de fato seria o alicerce deste atributo. Num reflexo de análise, vieram então à minha cabeça, principalmente, as grandes personalidades da história que mobilizaram grandes multidões em suas respectivas épocas. Para ilustrar isto posso citar Hitler, Jesus, Gandhi, Mussolini... e o principal critério que me levou à analise destes foi o comportamento social dos mesmos, que talvez alguém com um conhecimento mais aprofundado sobre ciências sociais possa contribuir com este ponto de vista.

Meu grande dilema então, diante do comportamento social, era: “qual a dificuldade das pessoas em perceberem quem os lidera, a forma com a qual se é liderado, e qual a dificuldade em liderar?”

Reconheço que o detentor do poder social possui engrenagens diversas que manipulam de tal forma a macro percepção das pessoas a ponto de tornar-las literalmente cegas perante fatos extravagantes, porém, no que tange a situação atual mundial, temos oportunidade de viver numa época da história onde o conhecimento é posto às prateleiras para ser selecionado por quem o busca, e isso me faz crer, de certo modo, que as pessoas são conduzidas, no fundo, por ser esta uma situação mais cômoda.

Dando então continuidade à reflexão, fustigava-me se cotidianamente não o fazemos isso em escalas menores e, se não o fazemos, por que não o fazer? Não o teriam feito as grandes personalidades da história (entenda-se aqui uma colocação imparcial), intencionalmente ou não, para conduzir as massas?

Preguiça

Hoje estou num daqueles dias em que há a devida preguiça para tudo. Para o uníssono dos anjos, para a polifonia dos demônios, para a Luz tanto quanto para as trevas. Sono? Isto, sono!

Para as longas tanto quanto para as mais breves narrativas. Preguiça até mesmo de permanecer a estátua de um só estado. Quero liquefazer-me, ir-me junto à urina. Descer descarga e encanação abaixo. Diluir-me e evaporar-me - mas sem feder, para não incomodar.

Melhor ser breve, pois o breve se esvai assim... Plaft; Pluft! E é mais provável que o que sobrar desta súbita aparição surja a olhos e ouvidos multitudinários. O mais breve amor é o amor mais amado.

Encostar por um pequeno momento insular a dura missão de doar sentido...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Falcão não é brega

Apesar de eu reconhecer a dificuldade de se delimitar com clareza o que venha a ser brega, eu não nego algumas características que de certa forma geram uma definição, mesmo que não consensual, do que seja esse estilo de ser. Falo isso, pois é muito comum ouvirmos as pessoas dizerem que o cantor cearense Falcão é brega, mas para mim ele não é. Para isso eu vou trazer algumas diferenças que eu noto entre o brega e o que se classifica como kitsch.

O kitsch surge em meio a sociedade de consumo na Europa. Porém, essa sociedade, apesar das distinções de classe, possuía um público com melhor poder aquisitivo. Já o brega surge também na sociedade de consumo mas em uma conjuntura subdesenvolvida onde não haviam consumidores com poderes aquisitivos suficientes para a compra. Enquanto o kitsch é a tentativa dos setores médios copiar a elite; o brega é a tentativa dos setores periféricos copiar a elite.

Pelo fato do kitsch ser a cópia produzida pelos setores médios, esses setores por terem mais prestígio social pelo seu capital cultural e escolar, tendem a fazer da cópia uma forma de criticar a própria elite. É por causa dessa necessidade de ironizar que eu acredito que o riso no kitsch vem de forma proposital.

Já o brega é o risível sem intenção, visto que a sua conduta provoca risos pela própria condição social de seu público, não por que ele procura provocar esse riso. Por não ter capital escolar devido à própria precariedade de vida e a falta de uma educação de qualidade, muitas vezes esse público não possui o interesse da crítica como o kitsch, e sim, simplesmente o sonho de atingir o prestigio da elite.

O kitsch, apesar de repercutir no sonho do consumo, por ter sido apropriado por indivíduos com acesso à educação de qualidade, terminou por se tornar uma expressão estética marcada projetos e por elaborações filosóficas. O kitsch assumiu uma postura tão crítica que ao expor uma estética marcada por excessos de objetos, quis representar o excesso das futilidades dos objetos na sociedade do consumo, por exemplo. Já o brega se apropriou do excesso em suas vestimentas e comportamentos por mero reflexo de grandeza estimulada pelo consumo.

É por isso que eu acho que Falcão não pode ser classificado como um representante do brega. Em se tratando da vestimenta, é notório que o interesse de Falcão é querer criar uma marca. Ele está muito ciente de que aquele tipo de roupa não é uma roupa comumente usada nas ruas. A forma como ele se veste representa uma brincadeira com o excesso, com a grandeza, com os objetos colocados arbitrariamente em um lugar, com a quantidade, com o excesso de imagens tão adorados pela sociedade de consumo.

Se observarmos a vestimenta dos artistas classificados como bregas, por exemplo, veremos que muitas vezes suas roupas condizem com o seu estilo de ser. É um tipo de roupa que não beira uma fantasia. Se essas roupas provocam o riso, é devido a uma combinação que nós podemos achar de péssimo gosto, não por que houve um interesse de provocar o riso nas pessoas. Diferente das combinações nas vestimentas de Falcão, essas roupas muitas vezes não buscam provocar o riso proposital.

Outro ponto que eu percebo claramente o lado não-brega de Falcão é a sua relação com o seu discurso. Quem já assistiu a uma entrevista sua, nota claramente o seu excesso de conhecimento. Diferente da maioria dos artistas bregas, ele possui um capital escolar e cultural. Nota-se que os argumentos de Falcão possuem uma linguagem nem sempre convencional. Sua forma de ver as coisas se apresenta de forma mais teórica assim como a forma de ver o mundo do kitsch.

Se observarmos as entrevistas de outros artistas classificados como bregas, veremos que os seus discursos possuem claramente uma linguagem simples, muitas vezes carentes de grandes elaborações, sem palavras incomuns ao nosso repertório vocabular, etc. Isso se deve ao fato do brega ser espontaneamente proveniente dos setores periféricos, setores carentes de maiores acessos à educação de qualidade, de um maior acesso a informação mais formativa.

É nítido que o interesse de Falcão está em trazer temas que consideramos bregas, no entanto, ele tem o intuito de ironizar o próprio brega, buscando achar palavras que pareçam soar ridículas e não apresentar aos nossos olhos um discurso naturalmente brega. Para mim, apesar de ser polêmico qualquer tipo de classificação, ser brega é se postar de forma que não implica em mostrar que é brega; ser kitsch é uma forma de brincar com o ser brega, e é isso que para mim Falcão faz.

Noticias

Extra, Extra!
Assaltos assombram as principais avenidas das metropoles!
Os carros congestionam as ruas e ninguem consegue trabalhar!

EXTRA, EXTRA!
Um homem espiona o vizinho e perde os dentes por isso.
A moradora ao lado apanha tres vezes ao dia do marido.

Extra, Extra!
Ha indicio de espaco-naves no ceu.
Os homens resolveram congelar os corpos para viverem milhares de anos.

Extra, Extra!
Mulher vende seus ovulos pela internet.
Criancas sao postas no anuncio para serem vendidas.

Extra, EXTRA!
Cantor morre de overdose.
Cientistas anunciam que cerveja pode ate matar rato.

Extra, Extra!
O Cebolinha engravidou a Monica,
e o Cascao resolveu tomar banho.

Extra, Extra!
Um androide se apaixona por uma mulher.
Uma mulher resolveu implantar um penis.

Extra, EXTRA!
Elvis nao morreu.
Deus e o Diabo esta na terra do sol.

EXTRA, Extra!
Os calos nao doem mais nos pes,
e as maos ja nao sofrem mais de calos.

EXTRA, EXTRA!!!!!!
EXTRA, Extra!!!!!!
extra, extra!!!!!!
extra!!


EX...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Para um coração gelado

Se eu lhe encontrasse de novo parada, encerrando no rosto os matizes fosforescentes da noite, cerraria talvez os olhos, abrindo a boca timidamente para um outro sorriso. Desejaria que entre os seus dedos estivesse em brasas o mesmo cigarro, aquele que da outra vez disputara espaço com uma pequena lata de cerveja nas suas mãos. Queria ainda os seus cabelos suados, com cada fio conservado na mesma dispersão, retesando neles a essência morna da dança que lhe extenuara o corpo, a qual persiste em se impor muito viva sobre a minha memória, projetando-se como uma ruína antiga e bela frente aos momentos contemplativos em que na minha face se contornam traços distantes. Mas enquanto não concebe ao seu pobre lacaio sequer os ossos da existência por que lhe adoram tantos, e enquanto por entre as suas carnes esconder como uma cuba o coração que lhe mantém as pernas firmes, a dor que torna destemperados os meus dias foscos será ainda carne, e prosseguirá a franzir esse rosto onde se revelam os infortúnios de todos os infelizes, pois estar apaixonado arde...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A Postura Agregante de Caetano Veloso: Estratégia ou Espontaneidade?

Agradecendo de antemão a contribuição do colega Lou, trago minha concepção sobre esta interessante questão, numa compilação de minhas respostas ao texto anterior.

Minha conclusão inicial é a de que, apesar desta mente receptiva de Caetano, vejo muito pouco oportunismo nisto. Aliás, a postura segregadora foi o que impediu os intelectualmente prestigiados de não enxergarem quem sustentava suas gravações requintadas e caprichosas na época da Odeon - os segregados artistas do Brega.

Caetano sempre esteve na contramão disto tudo, compôs sem tensões com Odair José e escandalizou a elite cultural. Sim, ver isto como uma estratégia de mercado me parece tão subjetivo quanto afirmar que isto lhe é uma postura natural, em que eu dou, aliás, muitos mais pontos a esta última assertiva, devido aos vários acontecimentos em que Caetano esteve envolvido que me vieram ao conhecimento.

Caetano foi preso na época da ditadura, exilado, causou estranheza a ponto de estar às margens do prestígio social.

Acho que o problema de se trabalhar com formas puras é a generalização. Hibridiza, logo é um estrategista de mercado. Acho que um melhor conhecimento das posturas assumidas pelo artista ao longo de sua carreira ajudasse a afastar a crítica mais fácil de todas - a preconceituosa.
Caetano não é filho de Sérgio Buarque de Hollanda,pelo contrário, teve a vivência com o popular desde que nasceu. Fala tão naturalmente do que acredita que acaba sendo algumas vezes mal interpretado, como no caso “Lula é analfabeto falando", que foi o mais recente.

Gravou Michael Jackson numa época em que o superestimado ufânico Ariano Suassuna clamava por uma purificação na cultura. Quando ferozmente criticado por este, respondeu-lhe elegantemente, reconhecendo-lhe inclusive a genialidade.

Aliás, por este grande depurador da cultura, nem o respeitado mangue beat teria existido. Justamente por apresentar características tão HÍBRIDAS. Chico Science vendeu bastante, não renegou o mercado em hipótese alguma, mas é tão festejado nos simpósios dos que criticam por criticar para afirmarem pra si mesmos que têm algo de críticos.

Mas ainda assim, há de se pensar o fato de que hibridizar para vender não seria condenável, seria-o, ao contrário, se se tratasse de mascarar tensões sociais. Esta é a faceta da hibridização que me parece altamente problemática e que certamente não é o caso de Caetano, dado seu engajamento em várias letras de sua autoria, bem como sua postura política quase sempre publicada.

Afinal, Mozart fazia música por encomenda, Villa-Lobos usava pseudônimo para vender músicas populares e Chico Buarque não doa seu imenso lucro por completo a instituições de caridade.
Por fim, tenho de forma segura que, apesar de o que Caetano está disposto a incorporar também coincida com o que se chama "comercial", creio que o faça de maneira espontânea.

Por todos os argumentos apresentados, por conhecimento dos primórdios de sua biografia, em que ele ficava vislumbrado com Caubi Peixoto, Luiz Gonzaga entre outros. E tudo isto somado ao fato de que, apesar de não possuir dados estatísticos, o que vi no olhômetro em seu último show foi muito de indiferença, muito de reação negativa e bem pouco de positiva ao fato de ele ter aberto o show com uma música de Psirico. Dançou no momento desta música (inclusive o Kuduro), divertiu-se nítida e intensamente no que me pareceu um êxtase sincero de sua sensibilidade.

Ainda que ele esteja agregando maior público por causa disto, não acho que seja estratégico. Aliás, compartilho um bocadinho desta biografia, pois no meu caso, em particular, dos meus 23 anos de idade, dez deles estão amalgamados com o envolvimento direto com a música clássica, chegando, inclusive, aos 14 a incorporar o coro que cantou trechos de ópera na inauguração do Teatro Tobias Barreto. Ainda assim, tenho em minha biografia recente a regularidade em ouvir Leandro e Leonardo, em pagar para ir a um show de Calcinha Preta e Calypso, a ter descoberto recentemente o Zouk e fazer dele até mesmo inspiração para composições, não obstante suas letras água com açúcar etc. Tudo isto me faz lembrar momentos de minha formação enquanto criança, faz-me ter momentos altamente nostálgicos da vivência com familiares etc.

Ademais, penso que um artista já consagrado até mesmo internacionalmente, há muito tempo já regravado por artistas popularíssimos, na figura-mor de Roberto Carlos, tenha muito pouco motivo para fingir ser o que não é pra ver se ganha mais espaço na mídia.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.

Simples e objetivo. Assim funciona a vida, meu caro, para os que não nasceram em berços esplêndidos. Para esses resta o piso da pirâmide, restam as estatísticas. Resta viver, as vezes, de forma desconexa da razão, por estarem aprisionados em algemas sociais da escravidão intelectual.

As pessoas são como as peças negras de um jogo de xadrez sobre um tabuleiro, onde quem está jogando com as peças brancas não só joga com diversas rainhas, mas como também segura o tabuleiro com as duas mãos e o chacoalha com fúria quando quer, mediante a sua vontade.

De posse da ciência suficiente, é preciso mais que crítica. É preciso mais que análise. É chegada a hora necessária da ação inteligente para mudar certos paradigmas sociais que são socados nas nossas mentes como dilemas.

Sem mais me prolongar.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Em meu cantinho

Se existe algum objetivo nessa vida, para mim, esse objetivo é o de criticar. Se eu não reclamar enquanto eu respiro, eu tenho a sensação de que eu estou evitando encarar uma fantasia criada por mim que me parece ser a mais verdadeira aos meus olhos. Estou dizendo isso, pois eu às vezes recebo criticas de muitos leitores que me soam irritadas, e por isso mesmo muitas vezes eu sinto que os leitores me atiram pedras com o intuito de apenas detonar por detonar.

Contudo caros leitores, eu sou orgulhoso pra caralho e não me rendo, apesar de reconhecer que vez ou outra, talvez devido ao meu cansaço, às minhas infindáveis fraquezas, eu me deixe ficar por um breve momento um tanto baqueado, mas o que me alimenta e me gera forças para eu sair dessas condições deploráveis é quando eu me lembro que grandes personalidades da história sofreram com argumentações e críticas doentias de ódios.

Será Vina um cara prepotente? Queridos leitores, não precisam tentar responder a tal questão. Eu respondo a vocês: sim, sou prepotente. Será Vina um cara humilde? Sim, também sou de uma humildade muito grande. É isso meus lindos e minhas lindas: sou uma pessoa que por temer sua própria pequeneza, utiliza-se de um escudo revestido da arrogância; sou uma pessoa que por saber de sua grandeza, utiliza-se de posições gentis para com os outros.

O que eu gostaria de chamar atenção para os que se chateiam comigo é que não se chateiem. A vida já nos reserva um universo de infindáveis de chateações independentes das nossas vontades. Reservem suas descargas para jorrar em situações talvez mais necessárias (se é que existe um parâmetro para o que seja necessário), mas enfim, não levem a sério o que muitas vezes eu afirmo em meus discursos. É carência mesmo. É capricho, é vontade de chamar atenção.

Mas entendam: não significa dizer que eu não possa ser levado a sério, pois se eu disser que é para vocês não levarem nada a sério, seria de fato um grande exagero de minha parte, até por que sei que o que exponho é fruto das minhas indagações e visões de mundo. O que eu quero dizer é que levem “de boas” pois eu sou apenas um cara chateado com a vida e que sinto o maior prazer do mundo em ver os outros se chatearem também com ela, pois só assim eu não me sinto só nessa chatice toda.

Estava eu conversando com meu grandíssimo amigo torto Josué Maia acerca de minhas opiniões sobre as coisas e em meio a nossa interessantíssima conversa, eu cheguei a seguinte conclusão: não tenho uma corrente de opinião definida em meus discursos, nem um ponto de vista permanente sobre as coisas. Acredito e desacredito nas coisas de acordo com as circunstâncias de cada momento. Se eu tiver feliz, acharei caminhos serenos, se estiver triste, acharei percalços.

Se eu sou anarquista, neoliberal, kantiano, cubano ou qualquer coisa? Não, quem tenta me definir assim são pessoas que julgam que a complexidade dos pensamentos cabe em uma forma. Já disse: sou o que minha opinião quiser no momento e mesmo que eu olhe para trás e veja que meu argumento se encontra totalmente contraditório com o que eu pensei anteriormente, evito ter insônias por isso, até por que eu acredito que ser torto é encarar a contradição como a lógica da vida.

É isso: vim ao mundo pra pôr a boca no trombone nem que para isso eu perca de meu convívio os tipinhos alegres que queiram apertar minhas mãos, mas não fico triste por perdê-los, afinal, não faço questão de muita gente ao meu lado, pois sei que eu sou sozinho mesmo e não tem quem me prove o contrário. Se eu for para o inferno, tenham certeza de que criarei um jornal oposicionista à política do diabo; se eu for pro céu, serei a oposição do mundo celestial; se me restar o purgatório, encontrarei rapidamente mil maneiras de mostrar o porquê o purgatório é uma merda do caralho.

Bom meus lindos fãs e inimigos, o que eu tenho a dizer é muita coisa, mas só quero que se lembrem que Vina é um cara legal e do mal e Vina é um cara do mal e legal. É isso aí. Sou um cachorrinho que late para o estranho quando ele se encontra do outro lado do portão, mas no momento em que o estranho passa para o outro lado, continuo a rosnar só pra não perder a pose, mas não faço nada.

Portanto pessoas queridas, não me levem a sério de forma tão intensa, apenas me deixem no meu cantinho. Beijos!

sem ritmo

os martelos enfervescidos
salpicam os saltos tacones
in-serido na madeira opaca

sem o frescor das tintas amareladas
nao ha documento
e nem sentido
para o trecho sem sentido

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poema reflexivo a Alberto Caeiro

As nuvens e o sol, que legam ao poeta inspiração para centenas de estrofes sem sentido, acumularam nas alturas a verdade mais diversa e intrínseca aos mesmos, silenciando para as coisas situadas abaixo deles a menor palavra que pudesse revelar fiapos que sejam da sua importância; assim, além da cor e das propriedades que lhes são externas, além da distância e das sensações que causam, foram subtraídos do meu poema estes dois objetos do alto, porque o mistério que lhes envolve a matéria os tornara fecundos demais para serem traduzidos em palavras. Subtraí também deles, naturalmente, as estrelas, e a inexpressão do brilho por que as chamam belas, e ainda a lua em razão da qual os nostálgicos admiram a noite. Excisei dos meus poemas, portanto, as coisas que não compreendo, cujas substâncias não as posso distinguir pelo tato e pelo cheiro, e cujas verdades serão a mim sempre indistinguíveis. Arranquei dele a tessitura da rosa mencionada ao descrever a pele lânguida da mulher por quem eu me apaixonara, remoendo nos nervos horas puramente satânicas, ansioso pelo logro estético – uma por uma, a exemplo de um jovem que brincasse de malmequer, cortei-lhe todas as pétalas coloradas, o perfume doce por vezes citado, a humanidade em si inexistente, e conservei-a unicamente flor, sobrando na página dos versos apenas mãos, sêmen, suor, cabelos, corpo,... os cebídeos atavios. Não expus meus sentimentos acerca do lírico que me impressionara afirmando serem as palavras dele possuidoras de sabor distinto e acurado; elogiei-lhe o estilo valorizando a perfeita musicalidade de suas frases sem alma, arranjadas sem exceção num corpo métrico desordenado, lembrando o que falam os homens obsessos a respeito da liberdade. Olhei sensivelmente as ruas duras e movimentadas da cidade, gozei do asco impregnado nos cantos de suas paredes maltratadas e sombrias; compreendendo as cores diversificadas dos carros, o número variável de pessoas a trafegar pelas calçadas, escusei o atrevimento de meditar o conteúdo subjetivo de seus donos e o espírito incólume dos passantes, respectivamente. Semelhantes empresas das quais, segundo dizem, podem-se extrair grandes virtudes, não cabem mais no meu poema, nas avaliações francas do meu verso, pois são, estando situadas à mesma distância dos astros, realizadas em si mesmas, indiferentes às razões... – objetos de que não se pode apreender nenhum sentido prático. Interessa-me somente, então, o adágio pavoroso dos ruídos manifestados de todos os lados nos horários de ida e volta, os lábios blasfêmicos que confluem as forças nos instantes soturnos, as retinas trêmulas dos velhos observando o presente em paralaxe com o passado, o corpo nu e branco da mulher vitimada pelos sonhos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Meu Coração é o Sol, Pai de Toda Cor

“E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão”

(Caetano Veloso, O quereres)

Nos grossos emaranhados de velo do Veloso Caetano parece haver espaço para o céu e para o chão ( desde que estes não criem problemas com a amplidão, ratifique-se).

Eis a realidade complexa de um artista que não se limita a ser arauto da contracultura, pelo contrário, abraça-a e não a toma em detrimento final do que está canonizado ou desprestigiado.

Poderia se tratar de um estilo “mãezona” ou paternalista, mas Caetano parece estar pouco preocupado em tomar as dores dos segregados e incompreendidos, antes, sim, parece ter já sobrepujado esta coisa de hierarquias, de modo que soa tão espontâneo o baiano de Santo Amaro, admirado por legitimados da estirpe de Wisnik, Luiz Tatit, Almodóvar, Torquato Neto e inúmeras figuras congêneres, chamar o líder de uma banda tão desprestigiada pela elite cultural (Márcio Victor, Psirico) de “gênio da música”.

Sim, é bem verdade que sua postura já canonizada na História recente do Brasil (um dos cabeças da Tropicália) parece a priori advogar a ruptura com os padrões socialmente legitimados de então. Mas fato é que a imensa obra deste polêmico artista mostra que a ruptura teria de vir, antes de tudo, para que o outro fosse “também” aceito e não “O” aceito. Trata-se, pois, de uma postura que antes agrega que enterra. Que antes mete no bolo, sem ultrapassar.

Estamos falando de um artista que sincretiza discursos. De alguém que assume uma postura artística híbrida. De um brasileiro preocupado com o movimento da História, prezando pelo que afeta, mas assumindo, concomitantemente, seu “saudosismo”.

Exemplo disto, aliás, esteve para quem pode ver nos shows de sua última turnê “Zii e Zie” em que Caetano nos traz a proposta do transamba, algo como uma mudança rítmica e melódica nas células consolidadas do samba. A guitarra tem mais responsabilidade, ainda que se fale de samba, que o violão, porém este ainda está lá, fraco, mas intacto. Aliás, interessante o fato de que o show desta turnê, aqui em Aracaju e em algumas outras cidades, foi aberto com Psirico e teve em seu desenrolar uma música do hiperconsagrado João Bosco, e algumas da fase tropicalista, por exemplo.

O desprestigiado, o consagrado, o incompreendido. Afetar sem apagar. Encontrar a “liberdade na amplidão”.

Em breve muitas outras considerações do gênero....

Filosofia (do grego Φιλοσοφία, literalmente "amor à sabedoria")

A filosofia tem por finalidade não a resposta final do questionamento, mas sim mostrar ao homem o caminho mais lúcido pelo qual esta pode ser encontrada. Ciência primeira da história está sendo praticamente banida das grades curriculares do nosso país.
Ao contrário das ciências exatas que se debruçam sobre a matéria propriamente dita, a filosofia tem por objeto de estudo o observador que aplica o conhecimento científico sobre esta matéria, buscando meios pelos quais possamos entender de alguma forma os processos que envolvem o homem no qual está apreendido o conhecimento científico que está sendo posto em prática. Daí o conceito de anterioridade às ciências. Logo, como poderíamos estudar as demais ciências antes de ao menos tangenciar conhecimentos filosóficos que despertem a fagulha do interesse pelo mundo material?
A necessidade do estudo acadêmico desta disciplina é uma questão tão grave, que posso comparar às necessidades de satisfações fisiológicas de uma pessoa. Disciplina formadora da moral do ser humano funciona como ferramenta de auxílio nas relações sociais através do olhar analítico que faz predominar sobre o olhar crítico, este último natural a nós.
Traz como parâmetro básico a sabedoria amparada pela lucidez: sobre o mundo externo; sobre si; sobre a própria ignorância.
a) A lucidez sobre o mundo externo se dá, por exemplo, pelo fato de não considerarmos acontecimentos geográficos como conseqüências de ações divinas. Pois, desde as raízes da nossa história, existe uma tendência natural do ser humano a explicar fenômenos naturais através de mitos.
b) A lucidez sobre si reside no autoconhecimento. No conhecimento do “eu” enquanto ser biológico e material e no conhecimento das próprias ações; no conhecimento da própria psique. Por exemplo, uma consciência que não reconhece os próprios reflexos muito provavelmente se sentirá pouco à vontade em meio a um grupo de outras consciências.
c) A lucidez sobre a própria ignorância está no fato onde podemos a cada dia descobrir que menos sabemos diante de um conhecimento universal - incompreensível à razão - fazendo assim com que qualquer um não conheça absolutamente tudo sobre algo. Diria então Sócrates: “só sei que nada sei.”

A filosofia moderna traz ainda, o que não poderia deixar de ser mencionada, a sugestão de um caráter: de movimento no sentido de ser, também, agente modificador de realidades sociais; catalisador de acontecimentos a favor da vontade do ser humano. Ambos através das ciências. Deixando de ser, como fora por muito tempo na antiguidade apenas observadora de acontecimentos.
E sim: sugeriria que fosse uma disciplina presente em todos os cursos, de todos os níveis acadêmicos, do nosso país.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Amor, incógnita de embaraço (Por Reuel Machado e Elaine Mesoli)

O jogo do homem com a mulher é jogo de meia palavra. Isentar parte de nossa violência simbólica não nos é, por vezes, pertinente (não que não seja coerente), afinal tudo se arrefece, pois a mulher nos quer seguros, homens de músculos e sentimentos fortes. Acaba-se com a psique da mulher, por isso a anarquia do homem frágil é desrespeitada pela mãezinha que acolhe e embala nossos sonhos.

Mulher, figura irresistível, castro tua animalidade, me castra a fraqueza. O bem dito amor, apesar de proclamado por alguns como o mais sem razão dos afetos, me parece que tem que ser posto no plano cartesiano, programado na maioria das vezes pelos homens, mesmo que sem bombons, shopping center e cinema. Tem que ser isento a priori de qualquer norte tortuoso, melhor, vamos sistematizá-lo:

- Uma frase inteligente (do ponto de vista relativo do que pode ser chamado de “inteligência”). E aquele velho beija pra depois perguntar.

- A idealização: retiramos aqui qualquer fragilidade ou menção de dor futura que possamos exalar para o ser desejado (principalmente pelo homem).

- O tal do estar, mas nem tanto: somos pessoas com muita informação e pouca segurança, portanto queremos seres apegados/desapegados, assim você quer beijar, mas nem tanto, quer amar, mas nem tanto, está apaixonado, mas nem tanto. É solido, porém nem tanto. O ideal é mostrar que se importa com o outro, ligar e mandar mensagens afetuosas.

- Momento de intimidade: agora tudo se resolveu e a aquelas necessidades estão passando. Então se ama, mas... Ela é linda e maravilhosa, mas tem aquela coisinha que não se atura. E essas coisas devem ser ditas, pois isso dá um ar de intimidade, afinal ela tem que saber que você a conhece de alguma forma.

Pois é, meus caros e minhas caras, o problema do amor, em qualquer um de seus infinitos graus, é quando tudo isso se descontrola e você acaba tecendo fios segundo a sua infinita inconsciência, até deixar tudo uma doce loucura, e virar um estúpido rapaz de fato, no êxtase, na histeria, na obsessão, na loucura. O melhor é deixar tudo arrefecer e descansar o peito enquanto tudo explode, desaguando e tratando o medo e o sofrimento com ternura.

Cessada essa viajem, gostaria de falar agora que, em nossos dias as mulheres de alguma forma estão superando o papel de sexo passivo nas relações. Alguns avanços como mais espaço no mercado de trabalho e a construção social da auto-afirmação feminina, têm modificado a relação da mulher com o homem. Um empecilho voraz que acomete a mulher é que, quando ela toma a iniciativa na paquera, ainda que em nossos dias, se torna estigmatizada, e um acaba dizendo pro outro: “– Brother, aquela mulher é muito atirada! Só serve pra pegar mesmo”. Coisas desse gênero que, como Elaine Mesoli falou, acabam soando na mente do homem como uma divisão das mulheres entre “para casar” e as para o “lanchinho”.

Já foi o tempo onde a mulher tinha por necessidade, além da coerção social que era gritante, de castrar o sexo por conta da ausência de métodos anticonceptivos eficazes, pois se ela se deitasse com vários homens, não poderia saber nem quem era o pai de seu filho. Hoje, nós temos artefatos que suprimem essa necessidade de anulação da própria libido, desde as pílulas até a camisinha. Para conhecermos o pai do bebê existem os exames de DNA e há até mesmo a possibilidade de engravidar sem transar com um homem com as inseminações artificiais. Tudo isso, somado à independência financeira, transferiu poder para a mulher, inclusive com relação à maneira como e com quem faz sexo. O problema é que o avanço material não acompanhou o simbólico. Afinal, em conflitos de poder há sempre resistência e tensão. Não estou dizendo que as coisas não mudaram. Entretanto, é uma mudança ainda insipiente, por isso quis chamar a atenção para o retrógrado modo de ver nossas irresistíveis mulheres, que ainda perdura e, não obstante, ainda as massacram. Inclusive aos homens também, pois como há resistência e tensão de ambos os lados, o dominado muitas das vezes sente prazer por estar em sua condição e o dominador, em alguns casos pode sofrer quando o mesmo tenciona a relação de dominação. É o caso dos homens frágeis ou tímidos.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Música e excesso de metáforas II

Esta semana uma leitora fez uma crítica ao meu texto “Música e excessos de metáforas”. Para essa leitora, o texto trouxe algo de forçado, uma vez que para ela, os pontos que eu propus discutir não estavam fazendo ligações com minhas argumentações. Acredito que isso possa ser verdade, até por que eu tenho que confirmar que minhas idéias acerca desse tema ainda estão embrionárias. Entretanto, nesta semana eu vou ver se consigo esclarecer meu pensamento.

Antes eu faço questão de reiterar acerca de minha definição do que seja o setor médio. Para mim, é o setor que não detém grandes capitais econômicos, mas também não sofre de forma extrema as exclusões sociais, assim como sofrem os setores periféricos da sociedade. Enfim, é um setor que vive transitando entre um lado e outro, uma vez que, se por um lado ele não faz parte da elite, também não é pobre, e por outro, se não é marginalizado como os pobres, também não é rico.

Recebi uma observação acerca da heterogeneidade dos setores médios universitários. Porém, não é minha intenção questionar se outras músicas são consumidas pelo setor médio, e sim o porquê da MPB ter esse setor como o seu principal consumidor, afinal, apesar de haver uma heterogeneidade, a MPB ainda se faz presente nele. A diferença é que novos artistas da MPB passaram a ser consumidos como Paulinho Moska, Lenine, Ceumar, dentre outros.

Preciso dizer que para mim, apesar da heterogeneidade, não há como desvincularmos a música do contexto social de seu público. A forma como determinado grupo social se comunica com seus membros, como se relaciona com o mundo, a forma de falar, de traduzir sua realidade, são fatores importantes para a relação de identidade que esse grupo estabelece com determinada música e é a forma como ele vai se ver assemelhado a determinadas canções.

Como a música reflete o contexto de seu consumidor, para mim, a MPB é a ambigüidade do setor médio refletida nas canções, visto que a MPB geralmente não se expressa de forma fácil de ser traduzida. Isso reflete a condição do setor médio, uma vez que, por se encontrar na posição intermediária da pirâmide, esse setor se expressa de forma indireta para não prejudicar os seus interesses, nem os interesses antagônicos que ele tem que integrar no seu jogo político.

Só para confirmar que a MPB reflete essa condição ambígua dos setores médios, o discurso que costumamos ouvir de seus artistas e consumidores é que a MPB é uma música preocupada com a realidade social, ou seja, uma música em defesa dos setores periféricos da sociedade; mas por outro lado a MPB é valorizada pelo seu requinte vocabular e melódico, ou seja, uma música que se distancia do povão e se aproxima da estética elitista da sociedade.

É por isso que para mim, essa forma de expressão ambígua da MPB e do seu consumidor ao se referir a MPB nada mais é do que a forma como geralmente o setor médio tenta se expressar e negociar com os demais setores. Ou seja, um setor que faz aliança com o setor periférico porque igual a ele, não possui a riqueza material, mas faz aliança com a elite, pois, por não ser um setor tão marginalizado como o setor periférico, usufrui-se do prestígio social.

Portanto, a MPB é a música que traz aquilo que a elite classificou de requintado, mas pelo setor médio também se aproximar do povão, esse tipo de música só é legitimado por ele por trazer questões que falam da violência e da exclusão vivenciadas pelos excluídos, os quais ironicamente ouvem em seus cotidianos as músicas classificadas pelos seus companheiros dos setores médios de ridículas, de chulas, de mau gosto, dentre outras palavrinhas a mais de amor.

Severinos

O sol brilha sobre as nossas cabecas,
ardem em nossas costas,
que nem podemos mais sentir
o peso da enxada,
quantos de nos?
quantos de nos, severinos?

severinos de vida severa,
severinos, de muitas cabecas multicoloridas
e disformes,
tracos marcados pela dor do tempo.

Tempo espacados, longos,
engolidos pela garganta do diabo.

quantos de nos severinos,
ja nao tem vida curta pelo mando de uma voz aspera,
e nem tao longa pelo sofrimento.

severinos avermelhados, amarelados,
negros esbranquicados e remelados
severinos expressamente inexpressivos,
rosto,
bocas, olhos e narizes
coletivamente personificados,

severinos somos nos,
coletivamente individualizados,
dentro de uma multidao exasperada.




* Caros amigos leitores e tortos,

Desculpas pela postagem fora de hora. Fiquei impossibilitada na segunda- feira a tarde.
Um abraco a todos.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Flanar

Sublinho, com passos e tons parecidos, a estrada cotidiana, por onde me endereço ao futuro, depois ter almoçado ao meio-dia. É estarrecedora, ainda hoje, a visão do começo triste da tarde, quando o sol parece despejar calor mais acurado sobre as coisas situadas abaixo de si. Já ao portão, após abrir a boca que reclama às obrigações do dia o direito à preguiça do corpo e da alma, cruzo com um navegante confuso, vindo de uma distância ficcional, e ele, embora espreitado, não desvia para outro canto os olhos que miram, talvez sem reflexão, as botas de couro gastas. Os rostos sardentos de ontem, do mesmo modo tristes e suados, atentam-se aos veículos que dobram a curva de onde vêm todos os ônibus. Quando os que esperam são muitos, geralmente todos os coletivos param, e de dentro de cada um, impelidas umas às outras por força da necessidade, as pessoas nos observam, tentando sorver, através de nossa imagem exterior, alguma dedução que se apagará no próximo ponto. E a vida delas são espelhos nos quais vemos refletidas as nossas próprias faces, com as agudezas dos nossos traços como que transplantadas, de maneira perfeita, para a mera reprodução destituída de qualidades que lhe sejam próprias. Entretanto, desordenados, lastimamos a particularidade perdida estáticos, ocorrendo de nossa parte, assim, a aceitação da homogeneidade e das velas acesas em menção da morte do sujeito. Pensamento contínuo, de uma forma ou de outra, a contingência, não abordada como sucessão de interesses externos aos indivíduos, foi superada porque as vontades, no fundo, convergem, e é com os mesmos trejeitos que todos nós lidamos com a realidade. Não obstante, degustamos de igual modo o conhecimento. E é divagando no espírito da utopia que, depois do caos urbano recrudescido por um calor agreste, alcanço as portas da universidade, encontrando, semelhante à ontem, os mesmos vigias, os mesmos corredores gélidos e os amigos fumantes a discutir os grandes temas da filosofia e das artes. No compasso do tédio insere-se vasto número de pitadas no cachimbo e as estratégias empresariais que finalmente tirarão os pés apressados da lama onde se encontram atolados. Por aí por dentro passo horas, para depois, assim como no ponto em que tudo se inicia, pegar o ônibus que me conduzirá, dessa vez, até minha casa. O que distingue uma cena da outra é a violência da subida, motivada pelo interesse geral de deslocar-se, nesse caminho de volta, sentado num dos bancos. Embora superiores – tipos de peito aristocraticamente estufado –, matam e morrem pelo simplório, pelo frívolo e trivial, omitindo a eles mesmos, num cinismo imoderado, as advertências lhes faz a razão. Mas o tempo absorve tudo e, pelas onze e meia da noite, estou eu, já esquecido do que transcorrera durante o dia, a tomar café acompanhado de uma mixórdia de pensamentos que comporão inutilidades como essa que agora acaba de ser escrita.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

UM BEIJO

Eu quero te possuir.
Quero que sejas minha.
Neste ponto sou um egoísta inveterado.
Sem negociação.
Nem propina.
Para ti minha alma se inclina.
Pende; se entorta.
É como uma penca de fruta puxada pela gravidade.
Seriedade, nosso amor.
Quero te colocar nos braços e te cuidar como criança.
Em teus cabelos fazer tranças.
Tranças como estradas infinitas marcadas pela imaginação.
Te adoro moça!
Ainda não te conheço o bastante.
Parece que esse fato é um espelho distante.
Mirá-lo é impossível.
Não é incrível!
Te amar sem o conhecimento pleno da causa.
Existe amor diferente?
Ele é coisa de gente.
Coisa que gente sente.
Entende?
Quero ser teu.
Quero viver contigo.
Ser na chuva um abrigo.
Ser teu eterno amigo.
Devaneio meu.
Sonho acordado na esperança de logo te ver.
Devaneio nosso.
Um beijo.
Guerreiro meu, soldado do amor.
Heroicamente te conquistou.
Um beijo.
Te amo...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ratificando uma Postura Perante a Música

Ratificando as ideias do texto intitulado “De ler Kant a ter nádegas a declarar” que postei neste blog em 2010, ainda penso que a música deva ser apreciada à base do “tempo pra tudo”.
O motivo desta postagem, confesso, é levantar possíveis questões contrárias ao meu posicionamento, para que eu possa me situar, talvez, mais coerentemente em relação a minhas opiniões acerca de algo tão presente em minha vida - a música.

Em primeiro lugar, não nego que em minha cabeça não haja classificações entre o bom e o ruim. No entanto, além de tal classificação estar em um feliz processo de mitigação, consigo me emocionar sinceramente com músicas de vários estilos, dos mais aos menos prestigiados socialmente. A coisa tem se deslocado, portanto, do plano do gênero musical, para o de cada música tomada em particular.

Mas voltando à ponte com o texto supracitado, um argumento que não esteve presente neste é o de que a arte deve necessariamente ter uma função revolucionária. Isto é muito difundido por alguns higienistas partidários. A minha resposta a priori a esta ideia é simples: se Fernando Pessoa a levasse a sério, sua obra provavelmente não existiria, e centenas de milhares de pessoas não teriam a sensibilidade contemplada e se obstaria até mesmo inúmeros processos de sublimação.

Lógico que se formos considerar a revolução como um deslocamento profundo em relação a um determinado sistema. Pois se, ao contrário, tomarmos tal termo de forma geral, temos que qualquer música pode instigar uma revolução ou outra. Ao ouvir uma letra da banda Harmonia do Samba, deixando, por exemplo, de enxergar a sexualidade para os que são mais afetados pela obra de tal banda com os meus olhos e passando a encarar tal realidade com os daqueles, aconteceu uma revolução no meu olhar. Talvez exemplos a mais, neste sentido, não se façam por ora necessários.
Atendo-me ainda à questão da função social da arte como libertária, revolucionária etc., encontramos mais outro problema que diz respeito a quando o artista se utiliza de sua imagem pública para interferir na realidade social. Afinal, é bem verdade que nas letras de Xanddy, vocalista da já citada Harmonia do Samba, não encontramos nenhuma crítica ao capitalismo. Contudo, seu envolvimento efetivo com o Grupo de Apoio às Crianças com Câncer já salvou a dignidade de muitos infelizes. Aqui é bem fácil para qualquer cretino dizer “é só fachada”, sobretudo quando não se esteve esperando por cirurgias urgentes ou economicamente inviáveis que só se fizeram possível porque alguém ouve Harmonia do Samba, dando a Xanddy o prestígio necessário para que este capte os recursos e devolva a dignidade a muitas crianças acometidas. Estas, aliás, talvez não viverão até que o “sistema mude”.

Enquanto isto muitos representantes da “alta cultura” estão produzindo do alto de seus gabinetes para uma audiência voraz em determinar o que é válido ou não culturalmente.
Um país que gosto muito de tomar por exemplo é a França, por motivos de ligações já diretamente efetivas com este. O país em que vi uma criança de mais ou menos cinco ou seis anos identificar elementos como perspectiva num quadro de Van Gogh é grande consumidor de músicas carentes de alto teor de politização. Deixo como exemplo o gigantesco sucesso há algumas décadas de Mirelle Mathieu. Nem por isto a nação deixa de apresentar um alto grau de politização, um IDH elevado, casas de óperas de séculos atrás sempre cheias, patrimônio cultural valorizado etc.

Porém, gostaria de ratificar mais uma vez o que propus no final do texto citado no primeiro parágrafo deste. Quando falo em tolerância, estou direcionando aos vários extremos da realidade. Dos que estão só preocupados com o molejo aos que estão só preocupados em discutir o sistema. Afinal, eu arriscaria afirmar que se abrisse o porta-malas do meu carro e jogasse Rage Against the Machine num bar em que há semanalmente um arrocha ao vivo, certamente seria hostilizado.

Raros 5 minutos...

Convido-te a um desafio: você consegue enxergar além da mascara que te foi imposta? Consegue vislumbrar a verdadeira essência do ser humano?

Algumas vezes sou remetido ao pensamento de que as personalidades “boas” da história tenham vivido apenas com intuito de serem diferentes da maioria, com único objetivo de simplesmente não serem iguais aos outros.

Busco incessantemente argumentos que sustentem o alicerce da bondade no ser humano. Pois, como uma avalanche contínua furiosa, nos são mostradas provas a cada dia do quão malévolo pode ser o homem (não deixando de me incluir neste aspecto). Mesmo não sendo por propósito, acabam por atingir, ou ao menos fustigar, os que estão a sua volta com suas atitudes egoístas, olhando sempre para dentro de si, erroneamente baseados em conceitos de individualidade, como se fossem parte independente da unidade primária na qual estão inseridos e não dependessem dela; agem ora cegos por instintos, ora cegos por razões.

O único animal que tem a opção de viver em harmonia nos meio-ambientes em que vive, ainda opta por atritos que tem gênese no seu próprio ser, produzidos única e exclusivamente por sua psique que, muitas vezes, transformar-se-ão em imensos infernos astrais autodestrutivos.

Apresento-lhes então a nossa fabulosa natureza dualista:

Entretanto, existe em nós um grande potencial, assim como a semente é a arvore e assim como o presente é o futuro, que devemos relacionar às nossas virtudes. Pois sem considerar cautelosamente esta “característica”, somos apenas mais uma raça de animais, com mais uma defesa biológica, que pretensiosamente chamamos de “consciência racional”, e a julgamos como fator de superioridade quando nos comparamos a outros seres vivos.

Potencial primo, que eleva Taj Mahal e Pietá, sinfonias e orquestras, prosas e sonetos.

Trago ainda, então, para figurar, versos de Olavo:

“Vives ansiando em maldições e preces
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano”

Uma lei inexorável dos princípios universais.

Convido-te, leitor, à reflexão.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Serra de Fogo

Em uma noite não tão comum havia uma mulher de cabelos brancos de pele escura, seus olhos brilhantes estavam pregados à fogueira que ardia a descontento da noite, suas duas filhas mais novas, se perguntavam por que a mãe não saía daquele lugar. A senhora à beira da fogueira quase não movia suas mãos cravadas entre as pernas, seu corpo prostrado em direção à fogueira.

São Sebastião era o nome da localidade, de poucas casinhas e vegetação expeça. Acordava dona Josefa sempre com pensamentos obsessivos a respeito da serra, a mesma ficava logo à frente da sua casa. A serra é chamada de Serra do Fogo, porque uma velha historia contava que antigos índios acendiam grandes fogueiras nesta serra para dançar, e em muitas noites escuras a serra se alumiava de tal forma que a serra parecia estar em chamas.

A senhora me contava às vezes que não encontrava as coisas dentro de sua casa, e acusava sempre as duas filhas – Carmo fia da pé, você pegou meu anel cão!? Carmo respondia que não, sem entender sua mãe, pois a mesma não tinha pegado nada. Contou-me Josefa outra vez que entrara no rio que ficava abaixo de uma grota às margens de sua propriedade, ela se encantara, pois por instantes via seu anel acima de uma rocha escura, ameaçou pegá-lo, mas o mesmo se esfumaçou.

Em uma tarde clara, dois homens de pele vermelha vestidos de bermuda e camisas estranhas e largas. Chegaram à porta de sua casa e entregaram um pedaço de pano com alguma coisa dentro que não era para ser aberta naquele momento, bem como olhando para a senhora afirmaram – O que tem de mais valido são as coisas que se põem na alma, a matéria mesmo densa em brasa viva se desintegra.

Seguindo o mesmo ritual à frente da fogueira, enquanto suas filhas caiam no sono Josefa sumia com as brasas da Serra do Fogo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A favor da militância

Por eu costumar tecer muitas críticas em relação à militância, quem costuma ser apressado em suas reflexões, tende a me classificar de direitista dentre outras adjetivações. Entretanto, apesar de eu já ter pedido cuidado com as interpretações que essas pessoas fazem acerca de minhas idéias, eu vou mostrar o porquê que eu não me vejo como um anti-militante, mas sim um crítico que termina por desacreditar nessa militância.

Como eu disse, não sou contra a militância. O que eu sou contra é a forma como os ditos militantes acreditam que vão atingir seus objetivos. Para mim, um dos erros da militância é ficar tentando agregar multidões insistindo em acreditar na totalidade em meio a um contexto recortado por múltiplas formas de interesses. Para mim, esse tipo de militância é do tempo onde as diferenças de interesses não se faziam tão plurais como atualmente.

Essa necessidade pela totalização faz com que haja uma necessidade entre os militantes de levantarem bandeiras e o cidadão fora da militÂncia é que termina prejudicado, pois quando se pensa o movimento político como totalização e bandeiras, há a intolerância de um grupo em relação aos outros que possuem princípios ideológicos diferentes. Nesse caso, a militância, antes de representar os interesses coletivos, torna-se uma arena de disputas de grupos que se encaram como oponentes e não como universos que por serem diferentes, podem contribuir com novas questões e elaborações de novos projetos.

Também não acredito na forma como a militância enxerga a mudança na conjuntura social. Não acho que se é quebrando uma estrutura da noite para o dia que as coisas funcionam. Antes, faz-se importante reeducar hábitos e valores que foram se relacionando com essa estrutura, do contrário, repetiremos o esquema das dietas mágicas que fazem o indivíduo perder 30 quilos em 15 dias e depois o “magrinho” engorda mais 40 quilos semanas depois! Ou seja, quebra-se as estruturas, mas por não quebrar o hábito, a estrutura anterior termina voltando.

Outra crítica que faço à militância diz respeito a esse imediatismo. É muito estranho perceber que um dos grandes valores da sociedade de consumo tão criticados por eles que é o imediatismo se faz revelar em seus discursos. Outro ponto que eles criticam, mas que reproduzem, é o de encarar a política como propriedade privada e não como bem coletivo. Isso a gente vê quando os militantes levantam bandeiras para seus partidos, esquecendo-se de que a política é algo que deve se voltar para o interesse público.

Por isso que para mim, os militantes devem reconhecer que por mais críticas que se possa haver em relação ao capitalismo, eles também possuem valores capitalistas incorporados. Eu acho que a militância também deveria reconhecer a diversidade de interesses no contexto atual; acabar com essa idéia de dogmatismo ideológico e se abrir para a diversidade de opiniões de outros grupos ao invés de se prender nessa concepção de grupo fechado e homogêneo, para que assim se possibilite um olhar mais complexo e mais crítico acerca das injustiças (e que não são poucas) provocadas pela conjuntura atual.

Caso os militantes tenham de fato o objetivo de alterar a realidade, eles não podem se perder nessa doutrinação mofada e parada no tempo. É importante a militância fazer uma leitura mais crítica da realidade, re-atualizando o seu discurso, pois querendo ou não, o contexto é outro. Quando a militância me provar ter atingido uma postura mais madura e menos birrenta, pode contar com o meu apoio torto, pois estarei disponível. Do contrário, preparem-se para mais críticas.

Efeitos da Ditadura

Chovia granizo. Demorei uns 15 minutos para me levantar, pois a temperatura do meu quarto continuava fria. Assim que tomei coragem, levantei o meu corpo pesado e pus meus pes envelhecidos no assoalho de madeira. Caminhei com dificuldade, dei dois passos e fui ao encontro da janela. O sol nascia timidamente, depois de um pequeno temporal. Os seus raios invadiam o meu rosto, proporcionando um engilhamento descontinuo na minha face.
Olhei para os lados e percebi que havia um retrato embaixo do meu velho radinho de pilha. Nao quis me recordar de nenhuma lembranca, desde o ano de 1964. Nao sei por que tive medo de nao saber quem estava ocupando todo o espaco da fotografia. Sei que eram duas pessoas, pois percebi que um pedaco da foto me mostravam 4 pes que pareciam bastante descontraidos.
Sentindo um pouco de dificuldade, fui ate a pia do meu banheiro, abri a torneira, ainda gotejante e preenchi o copo de agua o qual custumo usar para lavar os dentes. Retornei a ir na janela para regar os dois girassois murchos, apaticos quanto os energizantes raios solares. Sem notar, empurrei o copo de vidro e ele caiu da janela se despedacando em mil na terra molhada. Penso que os caquinhos de vidro demorarao para se degenerar e diferentemente das sementes, eles nao brotaram nem sequer um botao.
Sentei na cama, depois que liguei a televisao. Passava o jornal das 7, discutindo sobre o resgate da memoria brasileira sobre os efeitos escabrosos da ditadura.
Ainda nao me recordo muito bem o que aconteceu nessa epoca.
De repente, a televisao perdeu sua nitidez e as imagens tornaram a ficar um pouco discontinua. Naquela TV velha, era sorte minha em ter que assitir um programa por inteiro.
Apesar do tempo ensolarado, um vento frio invadiu as cortinas e derrubou o meu radio, levando a antiga foto para algum canto. E eu continuei sentado, quando ouvi alguem batendo suavemente na minha porta. Para me levantar, preferi ter comigo a minha bengala a qual estava ao lado da cama.
Abri a porta e vi um rosto nao tao envelhecido, sorrindo simpaticamente para mim. Continuei calado, mesmo depois daquele "Bom Dia".

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Epitáfio

Derrotado pelas circunstâncias naturais impostas por um destino trágico, delirou e foi mau para si mesmo enquanto pôde. Imbuído, como os seus, de pretensões humanas, também arquitetou sobre as misérias do corpo bosques e castelos. Jamais atentou contra a integridade física de quem quer que fosse, a não ser contra a sua mesmo, quando ansioso não sucumbiu ao receio de afundar as unhas na pele dos braços e da barriga, nem nunca desejou tirar a paz de quem estivesse sossegado. Muito mais do que um capricho do estilo, se falou com o vigor áspero subjacente à prosa dos moralistas ascéticos, o fizera opondo-se àqueles que tentaram tornar os desvarios pessoais um dispositivo generalizante, a fim de impedir a ascensão do sono e da preguiça de quem nasceu impossibilitado para o ânimo. Não tivera em vida sentimentos elevados nem família - abjeto como os cães que são chutados enquanto repousam indefesos nos beirais encardidos e mijados das ruas, mantivera-se à mira dos pés da racionalidade durante anos insossos, gozando o prazer dos safanões constantemente recebidos. Orou, vislumbrando o espetáculo do sol tórrido nascendo a um lado previsível do globo terrestre, a todos os infortúnios da natureza, pedindo explicações à amplidão disposta frente aos seus olhos imberbes sobre o porquê dessa trapaça cósmica toda. Esteve senão aos cantos, intercalado entre a incógnita e o desespero, procurando sempre repousar à sua própria sombra. Como qualquer homem, comeu, bebeu, excretou e, no amor, fora poucas vezes correspondido. Na falta do que fazer, como se não quisesse padecer ao tédio, praticou diariamente a dúvida.