Cheguei ao mundo para brincar de me enrolar por entre os nós. Não condeno quem acha que vive livre deles. Quem quiser acreditar na verdade absoluta e na possibilidade da harmonia eterna que acredite. Cada um escolhe sua própria ilusão. Quanto a mim, eu fico aqui enrolado. Eu sou o caos, sou a indagação, sou o problema. Eu vim pra cá foi pra deixar suspeitas. Não é da minha intenção cobrir o universo com agasalhos e dar-lhe colo. O que eu quero mesmo é retirar a cada instante o seu véu, rir com a falta de garantia, brincar no recreio jogando para o alto todas as peças desse jogo, revirar todos os dados e sequer pensar na pretensão acomodada de que eu posso ser previsivelmente o início, o meio e o fim.
O caos... certa vez, não sei bem quando, nem onde, vozes tentaram arrancá-lo de mim. Por medo dos olhos sedentos de ordem, eu quase deixo levar esse patrimônio mais sublime que preservo em minha alma. Em crise, corri para dentro do meu quarto. Fiquei na cama pensando se deixaria minha desordem. Ao pensar em me levantar da cama, não me vi deitado a lugar algum e em lugar nenhum. Pensei: não seria eu esse querer existir? Como podem aquelas vozes ter a pretensão de retirar de mim todas as infinitas surpresas do tentar me encontrar e do me desencontrar? Por que farei imensa tolice em deixar de lado a busca que faço de mim? Não!
Nem saí, nem entrei. Fui, sei lá. Sentindo-me um mero joguete dos tempos verbais, decretei a todo o universo de nós que me cercava que eu precisava correr o risco. Eu precisava correr o risco! Não cabia a mim sugerir uma perfeita integridade. Dei-me conta de que eu era uma luz em inconstante estado de desintegração. Gritei, pois eu queria o azar. Precisava mais do que nunca de todo o perigo. As estradas, apesar de maquiadas de sentidos, eram variáveis e cheias de deslizes. As placas eram apenas rastros. Meus pés eram festas surpreendentes por novos motivos pelos quais eu alimentava o meu exercício de viver, apesar de eu perceber que nunca tinha adquirido a plenitude desse dom.
Para quê ceder ao Senhor Totalidade toda essa herança de traquinagens? Não havia sentido eu fazer com que minha vida passasse a ser uma história falseada de atos ordenados e de total apreensão das minhas memórias. Preferi viver a custa do falseamento de mim em sua originalidade pela busca do que nunca fui. A sorte que me cabia era apenas necessária para derramar toda a minha contradição em meio a algum lugar. Sempre fui dado a bagunça. Não era agora que eu teria que deixar as coisas intactas sem pretensões, sem ganâncias. Não cabia a mim encontrar a régua, o metro, o termômetro, o numero de meu pé. Precisava movimentar para lados possíveis e desconhecidos.
Triste daquele que se apega a uma verdade. Minhas mãos não a alcançam. Pelo menos as minhas mãos não alcançam. A probabilidade do encontro com a totalidade é tão opaca e cercada por miragens como a falta de certeza que me devora aqui por dentro, pelos lados, pelo que há de preenchido e pelo que há de oco. Olhos são ferramentas para acertar o caminho das nossas ações, mas são incapazes de definir com total exatidão tudo isso que foi criado por olhos cambaliantes e bêbados como os meus. As classificações exalam cheiros muito reais. As tipologias me soam organizações muito auto-suficientes. Entretanto, bastam-me aparecer os sonhos e eu logo passo a sentir algo além das meras certezas, definições, organizações e auto-suficiências.
De fato, posso dizer que a busca pela noite que não vem, pelos sonhos que não se realizam, é algo bastante cansativo e por demais desconfortável, mas é o que me resta. Se ao menos eu fosse a certeza do trajeto que se chega até a montanha, bem que eu poderia descansar na varanda da menina que tanto amo e esquecer do fluxo que me invade diante desse imenso universo. Bem que eu poderia deixar o mundo enquanto acalentava os cabelos cacheados e castanhos de Marina na rede da varanda de sua casa. Mas não é só isso. Ao mesmo tempo em que eu alimento amores e projetos com minha menina, eu corro em busca de amores perdidos, amores que penso um dia poder dizer o quanto eu estive aqui a procura.
É por tudo isso que reluto em aceitar a condição de um estado permanente das carícias e do amor de Marina. Eu sei que isso apenas não me caberia. Se esse amor que tanto devoto suprisse toda a minha sede de aventuras dentro desse espaço solúvel do qual não consigo fincar minhas raízes, bem que eu cederia toda essa minha busca. Bem que eu cederia todo esse desajuste do qual venho tentando me libertar, mas sei que não me liberto, pois eu não quero tentar me ajustar. Eu quero realmente o processo que, apesar de muitas vezes me fazer chorar, faz-me acreditar que há um sentido pra vida, nem que pra isso eu admita que sentido é tudo o que a vida não tem.
Minha história com Marina é muito bonita, mas ironicamente o amor existe para que nosso terreno chamado coração não possa ser destruído por ervas daninhas as quais chamamos de amor. Eu quero o encanto de todos os olhares de Marina, mas eu quero a vida cheia de outros amores, de outras curvas, de outras aventuras. Não posso querer menos que isso, pois menos é algo que eu já sou, mas não do que eu penso em ser. Quero ser agraciado com o acaso também. Eu preciso das mãos e do sorriso de Marina, mas preciso dos imprevistos, de outras surpresas, de novos encantos e maravilhas além da minha menina. Não posso ficar aqui.
Novamente não vejo a noite chegar. Olho-me no espelho, mas também não sei se o que vejo é o que eu tenho pra mostrar de mim ou o que o mundo precisa inventar pra mim. Preciso realmente da aventura, dos gritos, da dor, do amor, da minha casa, da minha ferida, do gelo, da oração, do canto dos pássaros, de Marina, de sua casa com sua rede na varanda e da sua singela serenidade. Mas apesar de cansado, olho bem distante tudo que eu não sei o que é, mas que sei que quero ser e ter. Ponho o infinito em minhas costas e vou à procura do querer, mesmo que para isso eu tenha que me deparar com o medo do que eu quero.
Meu nome é desejo, muito prazer!
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segunda-feira, 28 de outubro de 2013
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Realidade, sonho e arte no surrealismo
* Este texto foi uma resenha do artigo "Os vasos comunicantes: escritura e psiquismo na poética surrealista" de Gisele Nery de Andrade. .
O surrealismo pretende ir de encontro à lógica racionalista do ocidente a qual separou a razão do universo marcado pela sensibilidade humana. Não é por acaso que o surrealismo vai propor uma reconciliação entre esses dois universos, ou seja, “propor a busca por um ponto de encontro, um espaço de cruzamento entre os dois domínios nos quais o homem se divide: racional e sensível” (ANDRADE; 2011, p.01).
Para o surrealismo, é só através da reconciliação entre esses dois universos que o humano poderia se reencontrar com o seu mundo interior, assim como, se enxergar como capaz de conduzir a sua vida exterior, afinal, ao romper com as barreiras, elas “deixariam de ser instâncias diferentes para se complementarem em um estado psíquico único, harmônico, que deixasse vir à tona a beleza, a magia, o fantasioso”. (ANDRADE; 2011, p.02)
Só através desse contato entre esses dois universos que o homem pode se constituir enquanto totalidade de si mesmo. Entretanto, mesmo acreditando na possibilidade dessa unificação dos dois universos, o surrealismo não acredita na idéia de uma garantia acabada do indivíduo em relação a si, afinal, essa “constituição é o que se deseja (re) encontrar o que está sempre a se realizar, mas nunca é alcançada”. (ANDRADE; 2011, p.02)
Não é do interesse do surrealismo encontrar um lugar definitivo para os humanos, até por que, por dialogar com a psicanálise acerca da compreensão dos sonhos, ele vai trafegar pelas linhas do desejo, ou seja, “assim como a teoria psicanalítica nos diz que o que move o psiquismo é a busca pela coisa perdida das Ding, que jamais é reencontrada, o objetivo do surrealismo é a busca do igualmente inalcançável”. (ANDRADE; 2011, p.06)
Como dito, para o surrealismo, a integração dessas duas dimensões influenciaria o homem em sua relação com o mundo exterior. Para os surrealistas, o homem encontraria a sua “realidade superior” por meio da unificação das instâncias psíquicas, pois só “a vivência do desejo que antes fora aprisionado nos porões do inconsciente pela racionalidade censora tornaria o homem finalmente livre e conhecedor de si” (ANDRADE; 2011, p.05)
É justamente por ir de encontro a essa racionalidade instrumental ocidental marcada pela lógica da razão negadora das subjetividades e dos sonhos que “o positivismo e o empirismo são rechaçados veementemente”. (ANDRADE; 2011, p.02). Essa negação se deve ao fato do surrealismo propor uma outra lógica a qual, antes de ser unicamente ligada à experiência, “vai ter de ceder lugar ao inconsciente e à imaginação”. (ANDRADE; 2011, p.02)
Porém, vale observar que o fato do surrealismo propor uma não-submissão do homem à razão, não significa dizer que essa corrente artística e estética vá de encontro ao processo lógico racional, buscando com isso uma fuga da realidade. Na verdade, o surrealismo pretende, em um primeiro momento, sobrepor a sensibilidade à racionalidade para que, por meio dela, o homem consiga se libertar das censuras impostas pela razão as quais inibem a expressão dos seus desejos mais profundos. (ANDRADE; 2011)
É por encontrar um novo caminho para a lógica proposta, que os surrealistas vão também questionar o estatuto interpretativo da arte. Ao invés de apoiar uma concepção de arte que perpetua o modelo da dimensão objetiva da representação, o surrealismo, por enveredar pelo caminho do onírico, “foge ao stablishment artístico de representação da natureza e da realidade exterior”.
A realidade exterior, uma interpretação produzida unicamente pela razão é negada pelo fato dos surrealistas acreditarem que o objeto artístico é articulado ao inconsciente, pois “tanto o sonho quanto a obra de arte surrealista teriam como objetivo levar o homem a entrar em contato com a própria subjetividade” (ANDRADE; 2011, p.08), uma vez que para o surrealismo “a arte, assim como o sonho, é território do símbolo”. (ANDRADE; 2011, p.05)
Não é por acaso que encontramos nas obras surrealistas os mesmos rompimentos com as lógicas conscientes, assim como nos sonhos. No surrealismo encontramos “os mesmos deslocamentos espaciais, temporais e contextuais” provocados pelos momentos oníricos (ANDRADE; 2011, p.05). É por isso que o surrealismo produz obras que apresentam imagens as quais promovem “um diálogo inadmissível por nossa lógica racional e totalmente pertinente ao plano onírico”. (ANDRADE; 2011, p.05)
Portanto, para o surrealismo, a criação artística se encontra diretamente ligada ao inconsciente, portanto, ao sonho, uma vez que o artista, assim como no sonho, termina por expressar um conteúdo latente, realizando “deslocamentos e condensações para comunicar uma mensagem que, ao mesmo tempo, diz respeito a uma inquietação pessoal”. (ANDRADE; 2011, p.08) Por isso que o surrealismo insiste na realização da arte enquanto escolha livre de elementos.
Se apropriando de todos os debates vigentes da psicanálise sobre o inconsciente, o surrealismo buscava reencontrar perspectivas interpretativas libertas dos modelos externos, e por isso mesmo “pregava a comunicação das ideias e das imagens que surgissem na alma humana sem que se permitisse qualquer intervenção dos mecanismos censores da consciência”. (ANDRADE; 2011, p.03). Além disso, propunha ao artista conceber uma obra completamente livre da censura da razão (ANDRADE; 2011, p.04)
Por propor a arte e a libertação do homem, o surrealismo nega a idéia da arte enquanto um modelo previamente acabado de sentidos, acreditando na “perspectiva de o homem vir poder dispor verdadeiramente de si mesmo” (BRETON, 1924a, p. 258 apud ANDRADE; 2011). Ou seja, ao invés de uma obra de arte reduzida a sentidos acabados, “o que se valoriza na linguagem são os elementos individuais, particulares do subjetivismo de cada indivíduo”. (ANDRADE; 2011, p.04)
O surrealismo propõe que o homem busque seus próprios caminhos e que “esteja munido para viajar para dentro de si (...) dissecando, elaborando a própria história” (ANDRADE; 2011, p.08). A proposta é que “o homem se permita uma entrega um pouco maior à própria sensibilidade, recuperando o contato com a inspiração, a intuição, a fantasia, a criatividade” (ANDRADE; 2011, p.04); acreditando na onipotência do sonho e no desempenho desinteressado do pensamento.
É por esse interesse em fazer o leitor passar a ser dono de suas próprias elaborações através da obra de arte que o surrealismo também não prioriza a formalidade das regras gramaticais, pois acha que a arte deveria ser uma espécie de força criativa e ilimitada do inconsciente o qual não poderia se submeter essas regras, ou seja, “o que importava era a libertação do espírito via pensamento e imaginação”. (ANDRADE; 2011, p.04)
Portanto, as palavras, antes de se resumirem às regras gramaticais e se encontrarem reduzidas à meras estruturas e preocupadas com a imagem e o som unicamente, passam a ser acolhidas pelos sentidos e abertas à re-significação. Como bem expõe Andrade, “a palavra teria a missão indelével de transformar a realidade interior e exterior, servindo como munição do verdadeiro sentido do Surrealismo: transformar”. (2011, p.04)
Como se nota, a partir do instante em que o surrealismo propõe um estilo interpretativo mudando a direção do consciente para o inconsciente, o leitor da obra de arte, antes de se apropriar de um sentido acabado, passa a re-significar os códigos “que orientam e confundem em direção à falta causada pela coisa perdida desde sempre que buscamos, sem sucesso, reencontrar”. (ANDRADE; 2011, p.07)
É por partir da perspectiva a qual se adentra no universo onírico que o surrealismo propõe que o leitor da obra de arte não deixe “que os planejamentos do devaneio sejam costurados pela linha da lógica da linguagem” (ANDRADE; 2011, p.07). Ao contrário. O que o surrealismo propõe é uma realidade que, sem a censura da razão, expressaria os conteúdos velados até então abrindo espaços para a falta que constitui o homem.
Em outras palavras, o surrealismo, a partir do reconhecimento da sensibilidade, tem como finalidade, a libertação do homem das amarras da razão. É pelo fato da cultura ocidental se encontrar habituada em se situar diante da obra de arte estrutural e preocupada com a reprodução dos sentidos, que o surrealismo termina desarmando o leitor da obra por “romper com os sistemas e as regras aprisionantes”. (ANDRADE; 2011, p.04)
Para o surrealismo, a partir do instante em que o homem abandona a restrição provocada pela lógica racional, além dele se encontrar em meio a um campo de realização em sua plenitude por diluir as fronteiras entre o imaginário e o real, “o espírito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da possibilidade não está mais presente” (BRETON, 1924a, p. 45 apud ANDRADE; 2011)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Gisele Nery de. Os vasos comunicantes: escritura e psiquismo na poética surrealista. XII Congresso Internacional da ABRALIC, Curitiba, pgs: 01-08, jul. 2011
O surrealismo pretende ir de encontro à lógica racionalista do ocidente a qual separou a razão do universo marcado pela sensibilidade humana. Não é por acaso que o surrealismo vai propor uma reconciliação entre esses dois universos, ou seja, “propor a busca por um ponto de encontro, um espaço de cruzamento entre os dois domínios nos quais o homem se divide: racional e sensível” (ANDRADE; 2011, p.01).
Para o surrealismo, é só através da reconciliação entre esses dois universos que o humano poderia se reencontrar com o seu mundo interior, assim como, se enxergar como capaz de conduzir a sua vida exterior, afinal, ao romper com as barreiras, elas “deixariam de ser instâncias diferentes para se complementarem em um estado psíquico único, harmônico, que deixasse vir à tona a beleza, a magia, o fantasioso”. (ANDRADE; 2011, p.02)
Só através desse contato entre esses dois universos que o homem pode se constituir enquanto totalidade de si mesmo. Entretanto, mesmo acreditando na possibilidade dessa unificação dos dois universos, o surrealismo não acredita na idéia de uma garantia acabada do indivíduo em relação a si, afinal, essa “constituição é o que se deseja (re) encontrar o que está sempre a se realizar, mas nunca é alcançada”. (ANDRADE; 2011, p.02)
Não é do interesse do surrealismo encontrar um lugar definitivo para os humanos, até por que, por dialogar com a psicanálise acerca da compreensão dos sonhos, ele vai trafegar pelas linhas do desejo, ou seja, “assim como a teoria psicanalítica nos diz que o que move o psiquismo é a busca pela coisa perdida das Ding, que jamais é reencontrada, o objetivo do surrealismo é a busca do igualmente inalcançável”. (ANDRADE; 2011, p.06)
Como dito, para o surrealismo, a integração dessas duas dimensões influenciaria o homem em sua relação com o mundo exterior. Para os surrealistas, o homem encontraria a sua “realidade superior” por meio da unificação das instâncias psíquicas, pois só “a vivência do desejo que antes fora aprisionado nos porões do inconsciente pela racionalidade censora tornaria o homem finalmente livre e conhecedor de si” (ANDRADE; 2011, p.05)
É justamente por ir de encontro a essa racionalidade instrumental ocidental marcada pela lógica da razão negadora das subjetividades e dos sonhos que “o positivismo e o empirismo são rechaçados veementemente”. (ANDRADE; 2011, p.02). Essa negação se deve ao fato do surrealismo propor uma outra lógica a qual, antes de ser unicamente ligada à experiência, “vai ter de ceder lugar ao inconsciente e à imaginação”. (ANDRADE; 2011, p.02)
Porém, vale observar que o fato do surrealismo propor uma não-submissão do homem à razão, não significa dizer que essa corrente artística e estética vá de encontro ao processo lógico racional, buscando com isso uma fuga da realidade. Na verdade, o surrealismo pretende, em um primeiro momento, sobrepor a sensibilidade à racionalidade para que, por meio dela, o homem consiga se libertar das censuras impostas pela razão as quais inibem a expressão dos seus desejos mais profundos. (ANDRADE; 2011)
É por encontrar um novo caminho para a lógica proposta, que os surrealistas vão também questionar o estatuto interpretativo da arte. Ao invés de apoiar uma concepção de arte que perpetua o modelo da dimensão objetiva da representação, o surrealismo, por enveredar pelo caminho do onírico, “foge ao stablishment artístico de representação da natureza e da realidade exterior”.
A realidade exterior, uma interpretação produzida unicamente pela razão é negada pelo fato dos surrealistas acreditarem que o objeto artístico é articulado ao inconsciente, pois “tanto o sonho quanto a obra de arte surrealista teriam como objetivo levar o homem a entrar em contato com a própria subjetividade” (ANDRADE; 2011, p.08), uma vez que para o surrealismo “a arte, assim como o sonho, é território do símbolo”. (ANDRADE; 2011, p.05)
Não é por acaso que encontramos nas obras surrealistas os mesmos rompimentos com as lógicas conscientes, assim como nos sonhos. No surrealismo encontramos “os mesmos deslocamentos espaciais, temporais e contextuais” provocados pelos momentos oníricos (ANDRADE; 2011, p.05). É por isso que o surrealismo produz obras que apresentam imagens as quais promovem “um diálogo inadmissível por nossa lógica racional e totalmente pertinente ao plano onírico”. (ANDRADE; 2011, p.05)
Portanto, para o surrealismo, a criação artística se encontra diretamente ligada ao inconsciente, portanto, ao sonho, uma vez que o artista, assim como no sonho, termina por expressar um conteúdo latente, realizando “deslocamentos e condensações para comunicar uma mensagem que, ao mesmo tempo, diz respeito a uma inquietação pessoal”. (ANDRADE; 2011, p.08) Por isso que o surrealismo insiste na realização da arte enquanto escolha livre de elementos.
Se apropriando de todos os debates vigentes da psicanálise sobre o inconsciente, o surrealismo buscava reencontrar perspectivas interpretativas libertas dos modelos externos, e por isso mesmo “pregava a comunicação das ideias e das imagens que surgissem na alma humana sem que se permitisse qualquer intervenção dos mecanismos censores da consciência”. (ANDRADE; 2011, p.03). Além disso, propunha ao artista conceber uma obra completamente livre da censura da razão (ANDRADE; 2011, p.04)
Por propor a arte e a libertação do homem, o surrealismo nega a idéia da arte enquanto um modelo previamente acabado de sentidos, acreditando na “perspectiva de o homem vir poder dispor verdadeiramente de si mesmo” (BRETON, 1924a, p. 258 apud ANDRADE; 2011). Ou seja, ao invés de uma obra de arte reduzida a sentidos acabados, “o que se valoriza na linguagem são os elementos individuais, particulares do subjetivismo de cada indivíduo”. (ANDRADE; 2011, p.04)
O surrealismo propõe que o homem busque seus próprios caminhos e que “esteja munido para viajar para dentro de si (...) dissecando, elaborando a própria história” (ANDRADE; 2011, p.08). A proposta é que “o homem se permita uma entrega um pouco maior à própria sensibilidade, recuperando o contato com a inspiração, a intuição, a fantasia, a criatividade” (ANDRADE; 2011, p.04); acreditando na onipotência do sonho e no desempenho desinteressado do pensamento.
É por esse interesse em fazer o leitor passar a ser dono de suas próprias elaborações através da obra de arte que o surrealismo também não prioriza a formalidade das regras gramaticais, pois acha que a arte deveria ser uma espécie de força criativa e ilimitada do inconsciente o qual não poderia se submeter essas regras, ou seja, “o que importava era a libertação do espírito via pensamento e imaginação”. (ANDRADE; 2011, p.04)
Portanto, as palavras, antes de se resumirem às regras gramaticais e se encontrarem reduzidas à meras estruturas e preocupadas com a imagem e o som unicamente, passam a ser acolhidas pelos sentidos e abertas à re-significação. Como bem expõe Andrade, “a palavra teria a missão indelével de transformar a realidade interior e exterior, servindo como munição do verdadeiro sentido do Surrealismo: transformar”. (2011, p.04)
Como se nota, a partir do instante em que o surrealismo propõe um estilo interpretativo mudando a direção do consciente para o inconsciente, o leitor da obra de arte, antes de se apropriar de um sentido acabado, passa a re-significar os códigos “que orientam e confundem em direção à falta causada pela coisa perdida desde sempre que buscamos, sem sucesso, reencontrar”. (ANDRADE; 2011, p.07)
É por partir da perspectiva a qual se adentra no universo onírico que o surrealismo propõe que o leitor da obra de arte não deixe “que os planejamentos do devaneio sejam costurados pela linha da lógica da linguagem” (ANDRADE; 2011, p.07). Ao contrário. O que o surrealismo propõe é uma realidade que, sem a censura da razão, expressaria os conteúdos velados até então abrindo espaços para a falta que constitui o homem.
Em outras palavras, o surrealismo, a partir do reconhecimento da sensibilidade, tem como finalidade, a libertação do homem das amarras da razão. É pelo fato da cultura ocidental se encontrar habituada em se situar diante da obra de arte estrutural e preocupada com a reprodução dos sentidos, que o surrealismo termina desarmando o leitor da obra por “romper com os sistemas e as regras aprisionantes”. (ANDRADE; 2011, p.04)
Para o surrealismo, a partir do instante em que o homem abandona a restrição provocada pela lógica racional, além dele se encontrar em meio a um campo de realização em sua plenitude por diluir as fronteiras entre o imaginário e o real, “o espírito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da possibilidade não está mais presente” (BRETON, 1924a, p. 45 apud ANDRADE; 2011)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Gisele Nery de. Os vasos comunicantes: escritura e psiquismo na poética surrealista. XII Congresso Internacional da ABRALIC, Curitiba, pgs: 01-08, jul. 2011
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