Ele escutava a versão da Ave Maria, por Franz Schubert, que possuía a maleabilidade necessária para a satisfação do seu gosto musical. Descobriu desde moço que essa era a esposa dos seus ouvidos, que nela havia elementos matematicamente calculados e forjados para sua introspecção, águas que irrompiam como revelação de acalento, uma freqüência determinada. Herdou, talvez, o gosto da mãe, que sempre às seis horas da noite ligava o som, não para escutar as versões das rádios, mas para ouvir as obras de Schubert. Foi como um desfribilador aplicando impulsos em sua alma, gravou a música por completo, desde a primeira vez.
Logo após sua terapia matinal foi à cozinha, correu a mão sobre a superfície do azulejo pregado à parede há alguns anos, poucos anos, muitos anos, indeterminados anos, na verdade. Terminou a procura do interruptor e exerceu uma força, pouca força, muita força, indeterminada força, na verdade. A luz acendeu com um lampejo imediato e determinado. Ele abriu a geladeira e lembrou da sua namorada, de nome determinado, cobrindo seus olhos, fazendo surpresa, no dia que ofereceu a viagem que fizeram à Europa, lembrou do avião partindo, pairando no ar, com sua velocidade determinada. Lembrou da temperatura, da precipitação de partículas que diminuiu tanto, a ponto de transformar água líquida em gelo, era um ponto determinado. Foi um período de muito frio, tanto frio que ele acabou ficando doente, ficou de cama em plena viagem turística, sua companheira foi à farmácia, comprou um medicamento, pegou a bula, deslizou os dedos sobre as linhas, leu atentamente, informou-se com propriedade sobre a quantidade exata da dose, entornou o líquido sobre um copinho cônico cortado ao meio, permitiu a queda das moléculas até a demarcação necessária de cinco mililitros. Ela foi informada, pelo farmacêutico, que de nada adiantaria dar menos que a dose determinada e que se fosse mais, o conteúdo se tornaria tóxico.
A viagem teve um espaço de tempo precioso entre os dois, mesmo com imprevistos, os dois conseguiam perceber o equilíbrio do amor que ali jazia, não era muito pouco, nem tampouco demasiado, era essencial e necessário.
Houve, em meio a todos os acontecimentos, uma explosão na cozinha de um restaurante requintado, eles haviam desistido de visitar tal recinto, mas souberam da notícia. O susto foi maior que o acidente causado, os cozinheiros não estavam perto do bujão. Tudo ocorreu no início do expediente noturno, o restaurante só abria durante o dia e durante a noite, o primeiro cozinheiro a entrar na cozinha repetiu o exercício do autor dessas lembranças e no instante em que o lampejo de luz foi instigado o gás do bujão explodiu, o oxigênio se misturou com o propano dentro dos limites superior e inferior de inflamabilidade.
Ele fechou a porta da geladeira com alguns utensílios na mão, os colocou sobre a mesa e começou a preparar seu café da manhã. Ele continuava a sua vida e permitia, junto a ela, a contínua necessidade “clarioculta” do entremeio.
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