Só depois de uma semana que minha querida amiga Josellen Bolucha me procurou. Aproveitei e a convidei para tomar umas no Traseiro da Estratosfera. No bar, ela teceu alguns comentários acerca do texto que postei no torto sobre os gordos intitulado “Preconceitos e hipocrisias”. A partir de suas indagações, eu resolvi dar continuidade ao tema só que falando sobre a condição do gordo nos discursos referentes às categorias marginalizadas.
Em nossa conversa, detectamos coisas muito pertinentes. Bolucha me questionou:- nós sabemos que os gordos, como todas as categorias excluídas da sociedade, sofrem preconceitos e têm que conviver com os discursos e com as ações hipócritas do politicamente correto, mas não será a categoria do gordo, a categoria que mais sofre opressão em nossa sociedade? Refletindo sobre sua indagação, concordei e encontramos algumas hipóteses.
Vejamos: vivemos atualmente em uma cultura que tem a obsessão de falar sobre a saúde. Nesse sentido, os gordos se encontram na contra-mão do Ideal intentado pelo nosso contexto atual. Óbvio que não podemos descartar as questões hereditárias que fazem alguns indivíduos se apresentarem à sociedade com suas estéticas de banha, no entanto, o que não podemos negar, o fato de ser gordo remete automaticamente a idéia de não ser uma pessoa saudável.
Enfim, o gordo termina sendo a resposta mais opositiva a uma sociedade atormentada pelo zelo com a beleza e com a saúde. É fato que ser gordo implica uma certa irresponsabilidade com a educação alimentar e com os hábitos referentes a atividades físicas, e é nesse sentido que as baleias, seja por falta de cuidado com a saúde ou com a não preservação de um corpo legitimado esteticamente, tendem a ser colocadas na condição de culpadas e de patológicas.
Aproveitei a décima rodada de cerveja no bar e comentei com Josellen Bolucha acerca de um papo que eu tive com minha amiga Uyara. Para Uyara, o discurso voltado a encarar o gordo como culpado é tanto que ao se falar sobre a anorexia, os noticiários encaram o fenômeno com um olhar de piedade. Quando esses noticiários se referem à condição dos gordos, eles rapidamente os colocam na posição de irresponsáveis e culpados pelos seus corpos.
O mais irônico é que se tratando das categorias socialmente marginalizadas, o discurso tende a ser colocado ou como excesso de vitimização ou como excesso de fetiches. Nesses dois casos podemos citar como exemplo os pretos. Se observarmos bem, eles são coitadinhos e a sociedade recebe críticas por segregarem-nos, mas também os pretos são objetos de cobiças sexuais. Já as baleias não são nem coitadinhas e muito menos cobiçadas sexualmente.
Quando minha alma baleia começou a ficar bastante atormentada, Josellen Bolucha me fez uma observação que amenizou minhas dores: os boluchos pertencem a um grupo marginalizado com possibilidade de reverter seus quadros, afinal, o gordo pode emagrecer, mas reconhecemos que é justamente devido a essa possibilidade de reverter nosso quadro que a condição de nos colocar como culpados assuma tamanha força em relação aos outros excluídos.
Depois desse argumentou eu perguntei a minha querida cachaceira bolucha:- mas e os pobres? Eles não podem um dia se tornar ricos? Eles não podem reverter seus quadros? Por que eles são colocados como vítimas? Segundo Bolucha, a diferença é que no caso dos pobres, a culpa recai no sistema econômico em geral. Já no caso das baleias, a sociedade as encara como culpadas, pois só depende delas a possibilidade de se tornarem as sereias idolatradas.
Nós temos que convir que outras categorias que não são vistas de forma reprovativa pela sociedade já atingiram o estágio pelo menos da hipocrisia discursiva. Isto é, mesmo que no fundo, assim como os gordos, os excluídos dessas categorias não se admirem entre eles por serem educados socialmente a classificar etnias, opções sexuais, etc, eles têm ao menos a admiração da sociedade e podem autoafirmar seus valores de grupos.
Bolucha estava de olho em um macho não-gordo no bar, mas ele estava de olho era no traseiro estratosférico da garçonete preta e não-gorda do bar Traseiro da Estratosfera. Contudo, a garçonete Maria Café tinha quatro irmãos. Dois deles presos, um viciado em crack e outro desempregado. Socialmente nada se alterou, mas todos queriam comê-la. Josellen Bolucha? Pagou a conta e foi para casa assistir as gostosas balançarem seus rabos na TV.
VISITEM
COLUNA DE VINA TORTO SOBRE MÚSICA E SOCIEDADE NO CINFORM ONLINE
TEXTO DA SEMANA: FIM DAS DISTINÇÕES MUSICAIS?
www.cinform.com.br/blog/vinatorto