Percebo comumente os estudantes universitários tecerem muitas críticas a respeito da educação brasileira. Realmente, há de convir que em se tratando do nosso ambiente educacional, faltam recursos de todas as ordens para um bom desempenho do aprendizado. Eu como professor de sociologia, poderia passar uma eternidade escrevendo as fragilidades encontradas por mim no sistema educacional brasileiro.
Pois bem: realmente a realidade da educação brasileira é um desastre. Porém, eu preciso fazer minhas críticas também a essa turminha do ensino superior. Eu sou da concepção de que a melhor revolução é aquela que se faz de dentro para fora. Acredito que, se o estudante começar a ter consciência da importância de seu papel na sociedade, ele vai conseguir encontrar estratégias viáveis para colher ouro em meio a essa lama.
Eu penso que, se os estudantes começarem a buscar se comprometer mais em suas formações, amanhã esse sistema educacional tão criticado por eles, pode se tornar menos caótico. Agora o que eu não concebo é que fique essa molecada ociosa tomando vinho e bocejando a tarde inteira sentada nas calçadas da vida reclamando da educação, do preconceito e da política sem fazer nada para que isso possa ser modificado.
Não pensem que eu sou da opinião do engajamento mortífero de que temos que abdicar de tudo para mudarmos a realidade. Sem essa. Porém, vamos convir o seguinte: o graduando universitário brasileiro tem um excesso de zueiras tão grande que chega a ser nocivo. Tudo é motivo para que essa molecada ociosa faça festa. É festa da pré-ressaca, do ressacão, da pós-ressaca, sem contar a freqüência de curtição estimulada pelo calendário brasileiro.
Se não é o dia das nossas senhoras da vida, é carnaval, é São João, é dia da mãe, do pai, do papel, do papa, do pau, da pedra, do fim do caminho, do dia da lavagem de Iemanjá, dia de Jesus Cristo, dia do bebê chorão, e por ai vai. Além disso, encontramos o péssimo hábito da falta de ritualização das coisas. Pra se curtir, têm-se todos os dias da semana. Eu pergunto: como vamos conseguir ter uma formação crítica de qualidade diante desse ritmo?
Uma boa formação exige didática e muita leitura. Como isso vai acontecer se os ociosos têm eventos para irem todos os dias? Mesmo que o aluno se planeje para estudar no dia posterior, o maluquito ou a maluquita gastou tanta energia na noite anterior, que não tem capacidade de se concentrar no outro dia. No dia que pode ter se recuperado, tem uma festinha do aniversário de dois meses da gata persa da amiga, ou mais um show para ir.
Não é minha intenção exigir um modelo comportamental, até por que eu já vivi essa realidade em meu contexto universitário. Outra coisa: eu defendo com unhas e dentes o direito do indivíduo relaxar. Já vivemos em um contexto mecanicista que insiste em submeter nossa razão, a uma racionalidade técnica; e o mínimo que podemos fazer é curtirmos, encontrarmos com nossos amigos e tomarmos nossas belas cervejadas.
O que eu estou querendo chamar atenção é que, é muito simplista cuspirmos críticas ao sistema educacional como o único responsável por toda uma má formação na escolaridade dos brasileiros, se os estudantes que cospem nesse sistema, também fazem parte do funcionamento precário das instituições educacionais, e não apenas os políticos responsáveis pela educação, os professores e os demais funcionários.
Reconheço que a situação do sistema educacional brasileiro ainda se encontra em um estágio embrionário em relação ao que nós concebemos como uma educação de qualidade, porém, mesmo estando em uma crise, temos um lugar no qual podemos trocar idéias com nossos colegas e fomentar novas discussões, além de novos projetos. Esse lugar é nada mais, nada menos, que o espaço das instituições educacionais.
Devemos exercitar um olhar torto, um olhar que rompa com a crítica unilateral, reconhecendo que, se a educação possui seus problemas, todos são responsáveis para o seu aperfeiçoamento. Ou seja: nem apenas criticando a conjuntura educacional, visto que, nós estudantes também fazemos parte do seu funcionamento; nem investindo nossas críticas apenas a nossa responsabilização, uma vez que, a conjuntura também tem seus problemas.
Faz-se necessário que sejamos capazes de criarmos projetos que surtam efeitos na realidade que tanto condenamos, e não apenas arrotando álcool e baforando cigarros o dia inteiro em botecos e festinhas, estabelecendo discursos críticos, mas sem efeitos práticos algum. O sistema educacional é uma vergonha, mas não correr atrás de melhores rumos para a educação e para a formação profissional, é vergonhoso também.