Encontramo-nos diante de um momento histórico que se caracteriza pela sua vulnerabilidade e por suas incessantes mudanças. Em um contexto no qual a verdade passa a ser constantemente refutada, e o absurdo passa a ser concretizado em um mundo permeado de imprevisibilidades, é simplista demais conceber de forma dicotômica a relação entre a realidade e a ficção, como se esses universos se posicionassem apenas de forma opositiva.
O que eu percebo, é que grande parte das pessoas a quem eu já tive a oportunidade de conversar a respeito dessa relação entre a realidade e a ficção, tende a encarar a realidade como algo voltado à ciência, ao concreto, à verdade e ao visível; enquanto a ficção tende a ser concebida como algo referente à arte, ao abstrato, à mentira e ao que não pode ser verificado.
Pensar a realidade como algo meramente voltado à verdade e ao concreto, e a ficção como um universo ligado unicamente à mentira e ao abstrato, ou seja, ao que não pode ser verificável, incorre a uma série de problemas. Devemos compreender que a realidade perpassa o mundo do abstrato, assim como a ficção se encontra diretamente relacionada ao concreto. Portanto, realidade e ficção são universos entrelaçados.
Por exemplo: apesar de sua precariedade, quem é que nega a existência do Estado? Se não enxergássemos o Estado, sequer questionaríamos sobre ele. Porém, mesmo concebendo a existência do Estado, quem consegue de fato, visualizar de forma personificada o Estado? O Estado, mesmo sendo real aos nossos olhos, se faz concretizado de forma fictícia em nosso dia a dia. Ou seja: a realidade pode ser ao mesmo tempo fictícia.
Mesmo sabendo que o Estado não é algo palpável, como poderíamos buscar exigir os nossos direitos, se não tivéssemos o invisível chamado Estado? O termo Estado é uma criação. Se fôssemos educados a concebermos o que concebemos como Estado, de Pirulito, procuraríamos o Pirulito para resolver os nossos problemas, e não o Estado. Como se vê, mesmo sendo de certa forma fictício, o Estado é real.
Um escritor de literatura consegue dar vida a sua obra quando ele traz elementos oriundos da realidade que justificam a sua postura fictícia, até por que, toda obra é reflexo de um contexto. Para que o receptor consiga fazer uma leitura sobre o panorama fictício, esse autor utiliza-se de inúmeros meios que dão realidade a sua trama, sem necessariamente precisar deixar de construir uma narrativa que fuja de sua natureza fictícia.
Já um cientista não conseguiria comprovar seus dados, se ele não tivesse se utilizado de sua imaginação para criar encadeamentos capazes de dar lógica a sua perspectiva. Nenhuma verdade existiria, se antes não houvesse imaginações oriundas das fantasias de cada um. Mesmo mesclando sua imaginação com sua argumentação lógica, o cientista não deixa de construir uma teoria concebida como científica.
A realidade e a ficção implicam ao mesmo tempo, interpretações lógicas e fantasísticas. A realidade é feita de imaginações construídas por lógicas que aparentemente se concretizam, assim como a ficção é oriunda das lógicas construídas de acordo com a imaginação de cada um, imaginação essa que, só aparentemente, parece fugir da realidade. Portanto, a realidade também é ficção e a ficção também é realidade.