Texto postado fora do horário habitual, por conta de queda de rede local.
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Quase tudo o que esteja disposto no tempo e no espaço pode me fazer rir.
Isto já foi objeto de análises várias: das mais casuais às mais acuradas, inclusive com afinco por parte daquelas teorias que se assumem limitadas, mas que se arvoram a explicar tudo. Nada feito.
Rio porque rio. Às vezes porque o interlocutor tem a intenção de me fazer rir, muitas vezes porque sua fala acaba me remetendo a outra experiência altamente risível, e, muito mais vezes ainda, porque percebo peculiaridades em sua fala que quebram o que espero por lógico.
Esta última causa pode trazer um corolário interessante. Às vezes estou rindo no momento em que alguém fala, dentro de uma roda de amigos, por conta dos trejeitos peculiares do falante. As pessoas que compõem a roda me observam com olhar médico, como se no meu caso só se pudesse tratar de patologia. Engraçado, quando por ventura faço imitação pública da pessoa que falava, aí sim todos tocam a rir. Deve ser porque a natureza me deu um miolo a menos e uma sensibilidade a mais.
Por mais inacreditável que pareça, na maioria das vezes, ao rir não estou ridicularizando o objeto do riso. Convencer as pessoas disto é que se faz tarefa quixotesca. Talvez por isto tenha as procurado cada vez menos. Se estas me procuram, sabem do risco de presenciarem uma profunda e sincera gargalhada. Mas, devo dizer, não condeno a insegurança alheia.
Muito embora deva explicar que se rio, por exemplo, de determinada idiossincrasia, é porque esta pode estar no momento a me provocar dolorido prazer, a exemplo das cócegas, ou a me remeter a agradáveis lembranças, ou a lembrar-me de certa quebra de discurso ou evolução esperada de algum plano da vida real, ou, aí sim entra o ridículo, me faz pensar que se trata de um estado de excitação por algo desnecessário, ou da indeferença a algo que se deva ser exaltado. Enfim, estes elementos muitas vezes estão justapostos, é tudo muito complexo.
Apesar de tudo, consigo ser coerente. Suporto com paz de espírito a reciprocidade do riso. Não que a coerência deva ser lá tão exaltada, afinal, se a razão luta para suprimnir o instinto, talvez a incoerência seja algo bem mais próprio ao ser do húmus. Parênteses à parte, deix’eu rir pra não chorar!