Neste texto eu gostaria de desenvolver as seguintes indagações: o que faz a MPB ser tão consumida entre o setor médio universitário? Quais são as características que contém essa música que justificam a grande intensidade de consumo dela em meio a esse setor? Acredito que a complexidade temática é o maior fator que leva esse setor a se identificar com a MPB, mas por que é justamente essa complexidade que produz essa identificação nesse setor?
Uma classificação convincente é bastante complicada, mas quando falo de setor médio universitário, refiro-me ao setor que possui certo prestígio social por ter capital escolar e não se encontrar na condição inferior da pirâmide, mas não possui a riqueza da elite econômica, pois apesar do certo prestígio, os indivíduos desse setor são trabalhadores assalariados. Um setor que detém de um prestígio social, mas que não possui a maior riqueza econômica.
O que leva o setor médio da sociedade se atrair por repertórios que contêm letras complexas e com excessos de metáforas? Acredito que o fato dos setores médios se encontrarem no meio da pirâmide social obriga-os a aprender a viver experiências ambíguas em seus cotidianos, pois ao mesmo tempo em que não são subalternos e possuem o poder, também não possuem o poder, pois não são extremamente ricos por não pertencerem a elite.
Os indivíduos dos setores médios ao refletirem acerca das experiências sociais pelas quais passam cotidianamente, fazem eles viverem uma rotina conflitiva, pois possuem boas influências tanto do lado da elite econômica, quanto do lado dos setores mais subalternos da sociedade, mas ao mesmo tempo não possui poder nem em um lado, nem em outro. São pobres querendo ser ricos, são ricos sendo pobres, são pobres e ao mesmo tempo também são ricos.
O indivíduo da classe média transita perdido em sua condição intermediária tentando atender tanto o lado mais fraco por ele necessitar do apoio desse lado por ser também mão-de-obra assalariada, mas ao mesmo tempo busca atingir o apoio da elite, afinal, mesmo o setor médio da sociedade não possuindo o prestígio material dessa elite, esse setor está consciente que diferente dos setores periféricos, ele se encontra em situações sociais menos precárias.
Podemos encontrar essa ambivalência nos discursos construídos pelos setores médios. Por um lado eles valorizam as ditas músicas críticas da MPB por dizerem que se preocupam com a realidade social e com os setores subalternos da sociedade, o que não deixa de ser verdade, pois o próprio setor médio sofre conseqüência dessa realidade por não pertencer à elite, mas por outro lado descarta as construções textuais populares aceitando apenas os modelos elitistas.
Enfim, dizem odiar os ditos burgueses, mas admiram os modelos elitistas, afinal, o setor médio, por se encontrar no intermédio da hierarquia, recebe as influências estéticas da elite; mas por outro lado, defendem os desprivilegiados, uma vez que, por fazer fronteira com esse setor, também recebe os valores dele. É por isso que o setor médio se alia com os subalternos e com a elite e ao mesmo tempo se nega a defender tanto a elite quanto os subalternos.
Essa é a realidade dos setores médios da sociedade. Fazem aliança com os dois lados, mas também desfaz aliança com os dois lados. Essa inevitável condição de assumir esses dois lados da moeda sem pertencer a nenhum, faz com que os indivíduos dos setores médios agreguem em seus repertórios, canções de teores ambivalentes, afinal, essa ambivalência nada mais é do que o reflexo político e social vivido cotidianamente pelo indivíduo médio da sociedade.
Como a música é a expressão de uma dada realidade, nada mais justo do que entender o porquê dos setores médios adorarem canções de difíceis traduções e de zombarem tanto das ditas canções simplórias do povão, afinal, para atender seus interesses confusos, o setor médio se reveste de milhões de metáforas, afinal, ele não pode se apresentar apenas para um lado. A melhor forma de o setor médio expor um sentimento é expressando-o em várias direções.